Basta abrir o Instagram em pleno mês de agosto para ficar com a sensação de que o país inteiro fez as malas ao mesmo tempo: fotografias de praia, grupos de amigos a combinar o próximo festival, escritórios em silêncio às sextas-feiras. É uma das ficções mais bem construídas do verão português, com uma base de verdade emprestada. Mas os números contam uma história mais dividida.
Nem toda a gente parte
Segundo um estudo recente “Férias dos Portugueses 2019-2026”, do Instituto Português de Administração e Marketing (IPAM), apenas 79% dos portugueses planeavam gozar férias no verão de 2026, uma percentagem já abaixo dos 85% registados em 2019. Ou seja, mais de um em cada cinco portugueses não tira férias de todo. E entre quem tira, a fuga para longe de casa também não é assim tão universal: 73% saem da residência habitual, o que significa que quase três em cada dez ficam por perto, mesmo tendo dias livres marcados no calendário.
A duração também desmente a imagem do mês inteiro fora. Mais de metade dos portugueses, 57%, opta por duas semanas de férias, não pelo mês completo que a mitologia do verão sugere. Só 21% ficam três semanas, e 14% contentam-se com uma única semana.
Quem sustenta o país enquanto “toda a gente” está fora
Há ainda outro pormenor que a narrativa do “país fechado” costuma esquecer: em agosto, uma parte considerável de Portugal está a trabalhar mais, não menos. Restauração, turismo, saúde, segurança, transportes: enquanto uma fatia do país está deitada numa toalha, outra está de pé, a servir-lhe o gelado.
E depois há os que não encaixam em nenhuma destas categorias: os freelancers com prazos que não respeitam calendários escolares, quem trabalha por conta própria e não tem “época baixa”, quem cuida de alguém e não pode simplesmente desaparecer por duas ou quatro semanas. Para essas pessoas, agosto não é hiato. É um mês como outro qualquer, só que com toda a gente a perguntar porque é que ainda não foste à praia.
O peso de não estar de férias
O problema deste mito não é apenas estatístico, é emocional. Quando a narrativa dominante é “toda a gente está de férias”, quem fica sente que está a falhar alguma coisa, como se o normal fosse desaparecer e ficar fosse a exceção que precisa de justificação. Isso gera uma espécie de culpa silenciosa: publicar menos no Instagram porque não há praia para mostrar, evitar a pergunta “então, férias?”, sentir que o próprio cansaço não é legítimo porque, tecnicamente, “ainda não é a tua vez”.
Vale a pena lembrar que ficar em agosto não é fracasso nem falta de sorte. É, para muita gente, simplesmente a vida real, a que continua a acontecer mesmo quando o resto do feed parece ter parado. E se isso descreve o teu verão, a boa notícia é que não estás sozinha nem és a exceção que pensavas ser. És, estatisticamente, quase um quarto do país.
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