Tens matches. Vários. Pessoas com quem andas a trocar mensagens. Algumas conversas interessantes que sentes que poderiam ter potencial. E, ainda assim, não tiveste dates. Nem sequer um “vamos combinar qualquer coisa”. Porque é que isto acontece? Posso adiantar que não é por falta de oportunidades, é, muitas vezes, o contrário.
À primeira vista, um cenário destes nas dating apps parece um contrassenso. Se há tantas pessoas disponíveis, porque é que é tão difícil os matches saírem do digital? Mas tu sabes que as dating apps criam um ambiente de abundância constante, certo? Há sempre mais um perfil para ver, mais alguém para conhecer, mais uma conversa que pode acontecer… Ao mesmo tempo, criam a dúvida permanente: e se houver alguém “melhor”? As aspas são intencionais!
Já ouviste falar do paradoxo da escolha? Este conceito explica que não só o excesso de opções pode tornar mais difícil decidir, como também pode diminuir a satisfação com a escolha feita.
E é isto que acontece nas dating apps. Segundo este conceito, a razão para não avançares para um date não é, neste caso, a falta de interesse ou de iniciativa, mas sim está relacionada com uma sensação de paralisia perante tantas opções. Assim continuas a fazer swipe, manténs várias conversas em paralelo, divides a tua atenção e investes pouco em cada uma. O suficiente para não deixar morrer, mas não o suficiente para avançar. Até os potenciais matches não parecem suficientes.
Quando tens poucas opções, decidir é mais simples. Mas quando tens muitas, escolher implica abdicar de todas as outras. E essa renúncia, ainda que abstrata, pesa. E leva-te a adiar decisões. Resultado? Uma espécie de “standby emocional” à espera daquela que tu achas que pode ser a “melhor” opção.
Mas, no meio deste ciclo, há uma pergunta importante à qual precisas de responder: qual é a tua verdadeira motivação para usares dating apps? Vá, mais uma pergunta: do que é que estás à procura?
Se as respostas incluem conhecer pessoas ou procurar alguém com quem ter um relacionamento, então, em algum momento, tens de sair da lógica de catálogo e entrar na lógica de experiência. Porque um match, por si só, não significa nada. Sim, nada! É a ideia de uma possibilidade. E as possibilidades só se tornam reais quando há ação.
Isso não significa marcar dates com todos os matches, obviamente. Significa, sim, fazer escolhas conscientes. Em vez de manteres conversas superficiais, que tal investires numa ou duas que realmente te despertam curiosidade? Tenho mesmo de insistir em algo que sabes, mas parece que te esqueces: se estás à procura de que surja algo perfeito, deixa-me dizer-te que é melhor explorares o que já te parece “suficientemente interessante”.
No fundo, sair deste ciclo passa por uma mudança simples, mas exigente: trocar a ideia de “e se houver melhor?” por “e se eu descobrir o que isto pode ser?”.
Às vezes, não é falta de opções. É excesso delas e pouca decisão pelo meio.
Artigo Por Rita Sepúlveda
Investigadora ICNOVA, Instituto de Comunicação da Nova
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