A pressão de “ir ao segundo”

O bebé ainda não tem três meses e já alguém perguntou quando é que vais ao segundo. Não é exagero. Acontece mesmo assim, com essa velocidade e com essa falta de consciência sobre o que está a perguntar. O corpo mal recuperou, o sono ainda não voltou, a identidade está a ser reconstruída peça a peça desde que aquela criatura chegou e mudou tudo e há alguém, com um sorriso genuíno e completamente benigno, a perguntar se já pensaste no próximo.

A maior parte das vezes, quem pergunta não tem intenção de magoar. São os avós, são os amigos com dois filhos que adoram a experiência e querem partilhá-la, são os conhecidos que encherem o silêncio com aquilo que consideram um tema seguro de conversa. O problema não é a intenção. É o pressuposto que está dentro da pergunta. O pressuposto de que vai haver um segundo. O pressuposto de que um filho único é uma condição a resolver. O pressuposto de que a decisão de ter mais filhos é neutra, simples e óbvia, quando raramente é qualquer uma dessas coisas.

O que ninguém vê quando faz a pergunta é o que pode estar do outro lado. Uma recuperação difícil que ainda não terminou. Uma perda gestacional que torna a ideia de voltar a engravidar simultaneamente desejada e aterrorizante. Ou simplesmente a decisão, consciente, informada, completamente válida, de que um filho é exatamente o que se quer. Que a família está completa. Que isso não precisa de justificação nem de calendário.

Existe também uma dimensão desta pressão que raramente é nomeada com clareza: quando alguém pergunta quando é que vai haver outro filho, está a perguntar, sem o saber ou sabendo, quando é que aquele corpo vai voltar a estar grávido. Nenhuma outra decisão sobre o corpo de outra pessoa é perguntada com esta descontracção em contexto social. Mas sobre engravidar de novo, a pergunta é completamente normalizada. Não devia ser.

E depois há a culpa. A das mães que querem ir ao segundo e não conseguem, e para quem ouvir esta pergunta tem uma crueldade específica. A das mães que não querem ir ao segundo e sentem culpa por isso, culpa de não estar a dar ao filho o que culturalmente se acredita que ele precisa. A das que ainda não sabem se querem e para quem a pergunta repetida torna a incerteza mais pesada do que precisava de ser.

A parte mais preocupante não é a pressão que é resistida. É a que funciona. Há pessoas que tiveram um segundo filho principalmente porque a pressão acumulada de família, amigos e cultura tornou a opção de não ter socialmente mais cara do que ter. Não foi uma decisão tomada com clareza. Foi uma capitulação gradual ao que toda a gente à volta assumia que era o passo seguinte. E uma família que cresce por pressão em vez de por escolha começa com um desequilíbrio que pode demorar anos a manifestar-se, mas que existe desde o primeiro momento.

Se deixássemos de fazer esta pergunta, aconteceria algo simples mas importante: as pessoas poderiam decidir o tamanho das suas famílias com toda a liberdade e todo o tempo que isso merece. Sem ter de gerir a expectativa dos outros no meio do processo.

A tua família é tua. A decisão é tua. O corpo é teu. E isso é suficiente.

#GlitterUpYourLife