Hoje, 6 de julho, é o dia em que Frida Kahlo nasceu. Morreu no mesmo mês, 47 anos depois, num dia 13. As últimas palavras que deixou escritas no diário foram: “Espero que a partida seja alegre, e espero nunca mais voltar.”
Voltou. Continua a voltar todos os dias.
Há algo de completamente singular no que Frida Kahlo se tornou no imaginário coletivo e que não se explica apenas pelo talento, nem apenas pela tragédia, nem apenas pela forma como viveu uma vida que parecia construída para resistir a tudo o que tentou destruí-la. O acidente de autocarro aos 18 anos que lhe fraturou a coluna, a bacia e trinta outros ossos. As mais de trinta cirurgias. A dor crónica que nunca a abandonou. A relação tumultuosa com Diego Rivera que foi o amor da sua vida e a maior fonte de sofrimento da sua vida adulta ao mesmo tempo.
Pintou tudo isso. Pintou-se a si própria com uma honestidade que a época não estava preparada para receber e que nós, décadas depois, ainda estamos a aprender a ter. Os autorretratos não eram vaidade. Eram documentação. Eram a única forma que encontrou de transformar a dor em algo que pudesse existir fora do corpo que a continha.
O que Frida deixou ao mundo não é apenas arte. É uma forma de estar, a ideia de que a vulnerabilidade e a força não são opostos, de que o corpo que sofre pode também ser o corpo que cria, de que a identidade pode ser construída com intenção e usada como afirmação política. As sobrancelhas, as flores no cabelo, os trajes tehuana, o bigode que nunca escondeu, tudo isso era uma declaração num tempo em que as declarações custavam muito mais do que custam hoje.
É por isso que o rosto dela aparece em t-shirts, em murais, em capas de revistas, em quartos de adolescentes em todo o mundo. Não é apenas ícone estético. É símbolo de algo que ainda ressoa profundamente: a recusa em ser o que os outros esperam, a capacidade de transformar a dor em beleza, a coragem de existir completamente num mundo que preferia que existisses menos.
A 6 de julho teria feito 118 anos. A 13 de julho faz 72 que morreu. O intervalo entre as duas datas é uma semana em que o mundo se lembra dela, mas a verdade é que nunca parou de se lembrar.
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