Quão dependentes do Chat GPT somos?

Perguntei ao ChatGPT, diretamente e sem rodeios: “achas que sou muito dependente de ti?”. Ninguém melhor do que ele saberá a resposta. Imediatamente, com aquele tom equilibrado que já lhe conhecemos, respondeu: “Não me parece que sejas ‘muito dependente’ de mim. Pelo tipo de coisas que me perguntas, vejo mais uma utilização muito prática: usas-me para desbloquear decisões, confirmar coisas, pesquisar, escrever melhor e poupar tempo. Desde questões da casa, impostos e burocracias até ideias para artigos, compras ou pequenas dúvidas do dia a dia”.

Ele é ótimo a fazer-nos sentir melhor sobre nós próprios. Até demais. Sinto que, às vezes, me está só a dar graxa. Mas o seu julgamento é duvidoso, pelo que fiquei a pensar nesta resposta. Porque, se uma inteligência artificial é hoje a entidade a quem pergunto se dependo demasiado dela, talvez a resposta já esteja, de alguma forma, na própria pergunta.

Os números não mentem

Não sou caso único. O ChatGPT ultrapassou este ano a marca de mil milhões de utilizadores semanais, e processa diariamente cerca de dois mil e quinhentos milhões de pedidos em todo o mundo. Um estudo recente da Universidade de Bogotá, publicado na revista científica Frontiers in Public Health, concluiu que a maioria dos utilizadores ainda não sente esta ferramenta como algo indispensável ou fora de controlo, mas encontrou uma relação clara entre o número de horas de uso diário e a perceção de dependência. A questão relevante, portanto, não é apenas quanto tempo usamos estas ferramentas, mas que função elas ocupam efetivamente na nossa vida.

O documentário que me deixou de coração nas mãos

Foi mais ou menos nesta fase de reflexão que vi, na Netflix, O Documentário da IA: Ou Como Me Tornei Otimista Diante do Apocalipse, de Daniel Roher, o mesmo realizador de Navalny. O ponto de partida do filme é simples e tocante, Roher está prestes a ser pai e decide investigar que mundo o seu filho vai herdar. Ao longo do documentário, especialistas do setor não poupam nas comparações drásticas. Um dos cofundadores do Center for Humane Technology chega a afirmar que devíamos encarar a inteligência artificial como uma ameaça tão séria como uma guerra nuclear.

Confesso que esta frase me ficou a martelar na cabeça durante horas. Que mundo estamos a construir para os nossos filhos, quando os próprios especialistas que trabalham todos os dias com esta tecnologia falam dela nestes termos?

As perguntas que ainda não sei responder

Depois do documentário, percebi que a minha ansiedade não era só sobre mim e a minha própria utilização do ChatGPT. Era sobre tudo o que ainda não sabemos. Que profissões vão existir quando os nossos filhos chegarem à idade de escolher uma carreira? O que acontece à nossa capacidade de pensar de forma crítica, quando a resposta mais rápida está sempre a um clique de distância? Estamos a criar uma geração mais criativa, com acesso a ferramentas que os adultos de hoje nunca tiveram, ou uma geração que nunca vai precisar de decorar, de errar, de procurar sozinha uma solução?

Há ainda a questão da privacidade, de tudo o que partilhamos, sem pensar duas vezes, com uma ferramenta que guarda cada conversa. E há a questão mais íntima de todas, a de saber se, ao pedirmos a uma máquina que valide os nossos medos, as nossas dúvidas ou as nossas decisões, não estaremos lentamente a desaprender a confiar em nós próprias.

Entre o pânico e a esperança

O que me deixou, curiosamente, mais tranquila foi perceber que o próprio documentário não fica preso a este alarme inicial. À medida que a investigação avança, Roher confronta as previsões mais sombrias com vozes mais otimistas, e o filme termina precisamente ali, num equilíbrio incerto mas possível entre o medo e a esperança, entre rejeitar a tecnologia por pânico e abraçá-la sem qualquer critério. Provavelemnte, esse é o caminho mais sensato para todos nós, usar estas ferramentas com consciência, sem demonizar nem idolatrar, e continuar a fazer as perguntas difíceis, mesmo quando a resposta nos deixa, por momentos, sem chão.

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