Outubro chega todos os anos vestido de rosa. Fala-se de prevenção, de rastreio, de diagnóstico precoce e, felizmente, cada vez mais de sobrevivência ao cancro da mama. Mas há uma parte da história sobre a qual ainda falamos pouco: o que acontece quando os tratamentos terminam e é suposto a vida voltar ao normal?
Enquanto oncologista, acompanho mulheres durante meses em que a vida passa a ser organizada em função da doença. Há consultas, análises, quimioterapia, imunoterapia, cirurgia, radioterapia, tratamentos hormonais e uma sucessão de decisões que não deixa propriamente muito espaço para parar. Durante esse período existe um objetivo muito claro: tratar.
E muitas mulheres entram numa espécie de modo automático. É preciso chegar à próxima sessão. Recuperar da cirurgia. Fazer a radioterapia. Gerir os efeitos adversos. Organizar os filhos. Explicar no trabalho. Tranquilizar a família. Continuar. Depois, um dia, a parte mais intensa dos tratamentos termina. Toda a gente respira de alívio. E é precisamente aí que, para algumas mulheres, começa uma fase inesperadamente difícil.
“Já acabou. Agora é voltar à vida.”
A frase é bem-intencionada. Mas pode ser profundamente injusta. Porque aquela mulher pode ter terminado a quimioterapia ou a radioterapia, mas isso não significa necessariamente que o corpo, ou a cabeça, tenham terminado o processo.
Algumas continuam anos sob terapêutica endócrina. Outras fazem supressão da função ovárica, entrando de forma abrupta numa realidade hormonal muito diferente daquela que tinham antes da doença. Podem surgir afrontamentos, alterações do sono, fadiga, dores articulares, alterações de memória ou concentração, mudanças de peso, secura vaginal e diminuição da libido.
E existem consequências que não aparecem numa análise ao sangue. O medo de uma recidiva. Uma relação diferente com o próprio corpo. Uma cicatriz que antes não existia. Uma mama reconstruída que não tem exatamente a mesma sensibilidade. A sensação de que todos seguiram em frente enquanto aquela pessoa ainda está a perceber o que lhe aconteceu.
As recomendações internacionais de acompanhamento após cancro da mama reconhecem precisamente isto: sobreviver não significa apenas vigiar uma eventual recidiva. Saúde sexual, bem-estar psicológico, família, trabalho e qualidade de vida fazem parte dos cuidados de sobrevivência. Talvez esteja na altura de a sociedade começar a olhar para eles da mesma forma.
A vida sexual também pode mudar
Há uma pergunta que continua demasiadas vezes fora das consultas: “E a minha vida sexual?”
O tratamento do cancro da mama pode ter um impacto significativo na sexualidade. Nas mulheres que necessitam de supressão ovárica ou determinados tratamentos hormonais, a redução dos estrogénios pode provocar sintomas semelhantes aos da menopausa: secura vaginal, desconforto ou dor durante as relações e alterações do desejo sexual.
A própria doença pode alterar a relação com o corpo. Depois de uma cirurgia mamária, de uma mastectomia, de uma reconstrução, da queda do cabelo ou das alterações de peso, reconhecer aquele corpo como sendo novamente “o meu corpo” pode levar tempo.
E depois existe o cérebro. Durante meses, sexo e desejo podem simplesmente ter descido para o último lugar da lista de prioridades. Quando alguém está preocupado com exames, tratamentos, prognóstico e efeitos adversos, não é particularmente surpreendente que a libido desapareça. O problema surge quando termina o tratamento e aparece uma nova expectativa: “Então, agora já está tudo bem.” Talvez não esteja.
A intimidade também precisa de recuperação. Não existe um prazo para voltar a desejar, para voltar a sentir-se confortável nua, para voltar a ter relações sexuais ou para voltar a reconhecer prazer num corpo que passou por tanta coisa. E estas dificuldades não devem ser desvalorizadas como secundárias. As guidelines de cancro da mama reconhecem a menopausa precoce, a infertilidade e a disfunção sexual como consequências que devem ser discutidas e acompanhadas. Porque qualidade de vida também é isto.
E depois é preciso voltar ao trabalho
Há outro momento particularmente desafiante: o regresso à vida profissional. Durante o tratamento existe, geralmente, uma compreensão social relativamente clara de que aquela pessoa está doente. Depois do tratamento, essa compreensão pode desaparecer muito depressa.
O cabelo voltou a crescer. Os tratamentos terminaram. Os exames estão bem. Então porque é que ainda está cansada? Porque é que precisa de sair para uma consulta? Porque é que diz que tem dificuldade em concentrar-se? Porque é que precisa de reduzir temporariamente o horário ou de trabalhar a partir de casa alguns dias? Porque é que não consegue simplesmente voltar ao ritmo anterior? Porque estar sem doença não significa estar sem consequências da doença e dos tratamentos.
A fadiga relacionada com o cancro pode persistir. Algumas pessoas referem dificuldades de memória, atenção, velocidade de processamento ou capacidade de realizar várias tarefas simultaneamente. Podem persistir alterações do sono, ansiedade, sintomas relacionados com menopausa induzida e efeitos adversos dos tratamentos que continuam a ser realizados.
Estudos recentes mostram, inclusivamente, uma relação entre algumas alterações cognitivas após o tratamento do cancro da mama e maiores dificuldades no regresso ao trabalho. Isto não é falta de vontade.
E uma adaptação temporária no local de trabalho não é necessariamente um privilégio ou um capricho. Pode ser exatamente aquilo que permite a alguém continuar a trabalhar. Flexibilidade de horários, regresso progressivo, pausas, possibilidade de teletrabalho quando compatível com a função ou tempo para consultas e tratamentos são exemplos de adaptações que podem fazer uma enorme diferença. Curiosamente, quando uma pessoa parte uma perna, ninguém estranha que durante algum tempo não consiga correr. Quando as consequências são invisíveis, somos muito menos tolerantes.
Quando finalmente há tempo para sentir
Há ainda uma realidade que vejo na prática clínica e que merece ser normalizada. Por vezes, é depois de tudo terminar que emocionalmente tudo começa. Durante os tratamentos não houve tempo. Havia sempre alguma coisa para fazer. Uma sessão para cumprir. Um resultado para esperar. Uma cirurgia para preparar. Uma família para tranquilizar. Um trabalho para organizar. A pessoa esteve ocupada a sobreviver.
Quando a agenda médica finalmente começa a esvaziar, aparece silêncio. E nesse silêncio podem surgir medo, ansiedade, tristeza, revolta ou simplesmente uma enorme exaustão. Para quem está de fora pode parecer contraditório: “Mas agora que acabou é que estás em baixo?” Sim. Pode acontecer. Porque agora existe finalmente espaço para processar aquilo que aconteceu. Não significa falta de gratidão. Não significa que a pessoa não esteja feliz por ter terminado os tratamentos. E não significa necessariamente que alguma coisa esteja errada. Significa que o impacto de um diagnóstico de cancro não desaparece no dia da última sessão de tratamento.
Talvez não seja voltar à vida. Talvez seja aprender uma nova
Falamos frequentemente em “voltar à vida normal” depois do cancro. Talvez devêssemos abandonar um pouco esta expressão. Porque algumas mulheres voltam à vida anterior. Outras não. Algumas mudam prioridades. Outras passam a olhar para o corpo de maneira diferente. Algumas regressam ao trabalho exatamente como antes; outras precisam de adaptações. Algumas recuperam rapidamente a sua vida sexual; outras precisam de meses, acompanhamento ou tratamento para o conseguirem. Nenhuma destas experiências torna alguém menos sobrevivente. O verdadeiro desafio do “pós-cancro” não deveria ser provar aos outros que já estamos bem. Deveria ser ter espaço para descobrir como estamos agora.
Neste Outubro Rosa, além de falarmos sobre prevenção, diagnóstico precoce e tratamento, talvez devêssemos acrescentar outra palavra à conversa: sobrevivência. Sobreviver ao cancro da mama não termina quando termina o tratamento. E às vezes aquilo de que uma mulher mais precisa quando regressa à vida não é que lhe digam “já passou”. É que percebam que passou por muito.
Artigo por João Vasco Barreira
Médico Oncologista, @thetwindocs
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