Ao longo da história, as mulheres foram ensinadas a ser úteis.
Não ocupar espaço, não fazer ruído, não desejar em voz alta, mas a servir. A ser o apoio invisível: dos homens, da família, do trabalho, da ordem social. Crescemos a ouvir perguntas práticas e funcionais. Raramente a mais simples e talvez a mais importante: como te sentes? A pergunta que nos fazem é outra, quase sempre implícita: como é que fazes os outros sentirem-se?
Talvez seja por isso que os desejos femininos tenham aprendido a falar baixo. A esperar. A pedir licença. São adiados com frases que parecem razoáveis: “agora não faz sentido”, “ele está numa fase importante”, “quando os miúdos crescerem penso em mim”. Mudam os cenários, as protagonistas, mas o enredo mantém-se: nas histórias das mulheres, a prioridade costuma ser sempre alguém fora delas.
Claro que amar envolve cuidado, proteção. Envolve, muitas vezes, colocar o outro à frente. Mas quando é que isso deixou de ser exceção e passou a ser regra? Quando é que o amor se tornou um argumento para o nosso próprio desaparecimento? Escolher sempre os outros, repetida e silenciosamente, não terá um custo? Para nós, mas também para quem nos ama?
Quando queremos agradar, tornamo-nos especialmente vulneráveis. Aceitamos conselhos que não pedimos. Valorizamos opiniões que não nos pertencem. Ajustamo-nos ao que chamam de normal, como quem veste um número abaixo do seu, só para caber. Seguimos caminhos já marcados e esquecemo-nos de perguntar se eram, alguma vez, os nossos.
O mais perigoso disto tudo é quase imperceptível: acabamos por viver uma vida que não escolhemos. Uma vida desenhada por expectativas alheias, decisões adiadas, silêncios acumulados. Porque no momento em que desistimos de ter voz sobre a nossa história, alguém a escreve por nós.
Talvez o problema nunca tenha sido falta de força. Nem de amor. Nem de capacidade de aguentar. Sempre soubemos fazê-lo. O problema pode ser outro: termos aprendido tão bem a viver para os outros que deixámos de reconhecer o que nos pertence.
Escolher-nos não é um gesto grandioso. É desconfortável, imperfeito e, muitas vezes, solitário. Vem com culpa. Com medo de desiludir. Com a ideia de que estamos a ser demais. Mas talvez seja exatamente aí que começa algo diferente, quando paramos de nos diminuir para caber no que esperam de nós.
Talvez o boost feminino de que falamos seja isso: o instante em que ficamos, finalmente, do nosso lado. Na vida, nem tudo precisa de ser cor-de-rosa, mas, para ser glitter, tem de ser real. Tem de vir de dentro. De nós. Às vezes sozinhas, muitas vezes com medo, quase sempre sem certezas. E, ainda assim, escolhermos permanecer connosco.
Artigo por Silvia Silva
#GlitterUpYourLife