Do papel ao ecrã: 5 séries recentes que começaram num livro

Há uma promessa implícita em qualquer adaptação literária: a de que aquele universo que existia apenas na imaginação de quem leu vai ganhar rostos, cenários, música e movimento. Às vezes a promessa é traída. Mas quando é cumprida acontece algo raro: a série e o livro passam a existir em paralelo, cada um a enriquecer o outro.

O streaming tornou este género mais ambicioso do que nunca. Os orçamentos cresceram, os riscos também, e o resultado são algumas das produções mais impressionantes que a televisão já fez. Escolhemos cinco séries recentes que valem cada episódio e que, em pelo menos dois casos, nos fizeram correr à livraria a seguir.

1. Shōgun (2024), baseada no romance de James Clavell, 1975 | Disney+

Shōgun foi inicialmente projetada como uma minissérie com dez episódios que adaptou o romance de James Clavell publicado em 1975. Lançada entre fevereiro e abril de 2024, disponível em Portugal através do Disney+, tornou-se uma das novidades mais populares e aclamadas do ano, quebrando os padrões com uma produção falada principalmente em japonês e elogiada pela sua autenticidade.

A história começa com John Blackthorne, um navegador inglês que naufragou no Japão do século XVII. Num país onde poucos europeus tinham chegado, onde os códigos de honra eram absolutos e a linha entre a vida e a morte era tênue como o fio de uma navalha, Blackthorne torna-se peça central nos jogos de poder do senhor feudal Toranaga.

Shōgun tornou-se um verdadeiro fenómeno cultural, tendo recebido 18 Emmys, um número recorde e o primeiro vencedor do cobiçado prémio de Melhor Série de Drama não falado em inglês.

2. Cem anos de solidão (2024), baseada no romance de Gabriel García Márquez, 1967 | Netflix

Cem Anos de Solidão é a primeira adaptação direta do famoso romance de Gabriel García Márquez, lançado em 1967. A trama acompanha a história multigeracional da família Buendía, cujo patriarca, José Arcadio Buendía, fundou a cidade utópica de Macondo com sua esposa Úrsula Iguarán, na companhia de outros amigos e aventureiros que tentavam a sorte longe das suas cidades natais.

Durante décadas, García Márquez recusou todas as propostas de adaptação. Só a família, depois da sua morte, autorizou este projeto e a Netflix entregou uma das produções mais ambiciosas já feitas na América Latina. Filmada inteiramente em espanhol colombiano, com elenco local e uma fidelidade ao realismo mágico do livro que desafia as leis do que a televisão normalmente consegue fazer.

3. O problema dos 3 corpos (2024), baseada na trilogia de Cixin Liu, 2008 | Netflix

Dos criadores de Game of Thrones, David Benioff e D. B. Weiss, chega a adaptação do romance de ficção científica mais vendido de sempre na China, e uma das mais ambiciosas da história do streaming. A série explora bem as qualidades do livro de Liu, tomando liberdades que tornam tudo mais acessível para um público global, com um grupo plural de jovens físicos cujos destinos ficam inevitavelmente ligados a uma ameaça que vem de muito longe.

A premissa é vertiginosa: nos anos 60, durante a Revolução Cultural chinesa, uma cientista toma uma decisão que vai mudar o destino da humanidade para sempre. Décadas depois, os melhores físicos do mundo começam a morrer misteriosamente e uma contagem regressiva que só alguns conseguem ver vai chegando ao fim.

4. Daisy Jones & The Six (2023), baseada no romance de Taylor Jenkins Reid, 2019 | Prime Video

Uma banda de rock dos anos 70 no auge da fama, um álbum que podia ter mudado tudo, e a decisão de se separarem na noite em que tocaram para 20 mil pessoas. Daisy Jones & The Six começa no fim e trabalha para trás, contada como um documentário de arquivo, com entrevistas, imagens de bastidores e canções originais escritas para a série.

Riley Keough e Sam Claflin têm uma química explosiva e incómoda que faz exactamente o que a história precisa: faz-te torcer por eles e temer o momento em que tudo parte ao mesmo tempo. A banda sonora, escrita de raiz, é tão boa que existe como álbum independente — e podes ouvi-la sem ter visto um único episódio.

5. O conto da aia – temporadas recentes, baseada no romance de Margaret Atwood, 1985 | Prime Video

Incluímos esta porque, depois de anos no ar, as temporadas mais recentes de O Conto da Aia e a sua sequela Os Testamentos continuam a ser algumas das televisão mais relevante da actualidade e porque o livro de Atwood parece ganhar urgência nova a cada ano que passa.

A República de Gilead, onde as mulheres foram reduzidas a funções biológicas e o poder é absoluto, começou como distopia literária e foi-se tornando, episódio a episódio, num espelho cada vez menos confortável do mundo real. Elisabeth Moss entrega uma das melhores performances da televisão moderna, numa série que continua a ser discutida, estudada e temida da forma certa.

Uma nota final sobre adaptações

A melhor coisa que uma série baseada num livro pode fazer não é ser fiel a cada página, é ser fiel ao espírito do que o autor quis dizer. Às vezes isso significa mudar personagens, comprimir décadas, inventar cenas que não existem no original.

O que não pode mudar é a razão pela qual aquele livro importava. E as cinco séries desta lista, cada uma à sua maneira, perceberam isso.

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