O flirt moderno é basicamente gestão de ansiedade com notificações

Há poucas experiências tão emocionalmente desgastantes como tentar manter uma conversa interessante no WhatsApp com alguém de quem gostas. Especialmente naquela fase inicial em que ainda ninguém sabe bem o que isto é, mas ambos já estão claramente demasiado investidos para fingir naturalidade.

O flirt moderno não é sedução. É estratégia.

Tudo começa inocentemente. Uma reação a uma story. Uma piada ligeira. Um “ahaha” que rapidamente se transforma numa análise comportamental digna de FBI emocional.

Porque de repente passas a fazer coisas completamente normais, como olhar para uma mensagem durante 17 minutos antes de responder para não parecer demasiado disponível. Ou demasiado indisponível. Ou demasiado entusiasmado. Ou sem personalidade.

Existe um equilíbrio muito delicado entre “responder rápido porque tens interesse” e “responder rápido porque aparentemente não tens vida própria”.

E ninguém sabe exatamente onde está essa linha.

Depois entram os detalhes psicológicos completamente absurdos. O número de emojis. O uso de pontos finais. O “ahah” versus “ahahah”. O terror absoluto de receber um “ok”.

Porque um “ok” no WhatsApp nunca é só um ok. É um estado emocional.

Também há aquele momento específico em que decides reler a conversa inteira à procura de sinais. Como se estivesses a estudar um documento histórico. “Ele usou um emoji a mais aqui.” “Ela respondeu com áudio, isto é intimidade.” “Ele gostou da minha mensagem mas não respondeu… isto é passivo-agressivo ou só está a trabalhar?”

Ninguém sabe. Mas todos fingimos que sim.

E depois existem os áudios. Os áudios são um nível avançado de vulnerabilidade emocional. Porque texto ainda dá para editar mentalmente. Áudio não. Áudio revela respiração, hesitação, personalidade e, em casos extremos, eco de solidão no quarto.

Mandar um áudio casual para alguém de quem gostas exige uma confiança que honestamente nem toda a gente tem.

Outro fenómeno fascinante é o “estar online ao mesmo tempo”. Aquela situação em que ambos aparecem online, desaparecem, voltam a aparecer e nenhum manda mensagem. Uma dança digital de ego e ansiedade.

É praticamente um duelo de western emocional.

E claro, há sempre o grande clássico: acabar uma conversa. Porque ninguém ensina como terminar um flirt por mensagem de forma normal. Ou a conversa morre lentamente com reações a memes, ou alguém manda um “vou dormir 😴” às 21h38 só para sair com dignidade.

No fundo, flirtar no WhatsApp é uma experiência coletiva de pessoas a tentar parecer descontraídas enquanto perdem completamente a sanidade por causa de três pontinhos a aparecer no ecrã.

E talvez o mais romântico de tudo seja isso mesmo: duas pessoas interessadas uma na outra, ambas a fingir calma enquanto entram em colapso silencioso atrás do telemóvel.