Crescemos a ouvir falar do 25 de Abril como um evento histórico, com datas e nomes e capítulos de manual escolar. Mas o 25 de Abril foi, antes de tudo isso, um conjunto de pessoas que decidiram que o medo já tinha durado tempo suficiente. E entre essas pessoas havia muitas mulheres que raramente aparecem nas fotografias mais conhecidas, que raramente aparecem nos livros, mas que estiveram lá. Que resistiram, que guardaram segredos, que arriscaram, que saíram à rua de pijama às quatro da manhã porque a liberdade não podia esperar pelo pequeno-almoço.
Cinquenta e dois anos depois, eu vivo numa democracia. Posso escrever o que penso. Posso votar. Posso estudar e trabalhar e divorciar-me e amar quem quiser e dizer não quando quero dizer não. Nenhuma dessas coisas foi sempre verdade. Algumas delas só se tornaram verdade porque houve homens e mulheres que lutaram especificamente para que o fossem.
E então fico a pensar: o que fazemos nós com essa herança?
Há uma tendência confortável que é a da nostalgia passiva. Celebramos o 25 de Abril com cravos e com emoção genuína e com gratidão sincera, e depois voltamos às nossas vidas e esquecemos que a liberdade não é um troféu numa prateleira. É uma prática. É uma escolha que se faz todos os dias, nas coisas grandes e nas coisas pequenas.
A liberdade é poder falar. Mas também é ter coragem de o fazer quando é difícil, quando o silêncio seria mais cómodo, quando a sala inteira pensa de forma diferente e tu de qualquer maneira levantas a mão.
A liberdade é poder escolher. Mas também é perceber quando as nossas escolhas ainda estão a ser moldadas por expectativas que ninguém nos disse que podíamos recusar. Quantas de nós crescemos a fazer coisas que “se fazem” sem nunca questionar se realmente as queríamos?
A liberdade é não ter medo. Mas também é reconhecer que há mulheres em Portugal que ainda sentem medo em casa, que é o lugar onde se supõe que se está segura.
Não digo isto para estragar a festa. Digo isto porque acho que a melhor forma de honrar o que aconteceu em abril de 1974 é não dar nenhum direito por garantido. É olhar à volta com atenção. É perguntar-nos, honestamente, quem é que ainda está de fora.
As pessoas que saíram à rua naquela madrugada não sabiam exatamente o que viria a seguir. Sabiam apenas que havia algo que não podiam perder. Há qualquer coisa muito bonita nisso, e também muito útil para hoje: a ideia de que a liberdade não é um estado que se alcança e se mantém sozinho. É uma direção. É um compromisso de não parar de andar para lá.
O cravo na lapela é bonito. Mas o cravo mais bonito é o que se planta todos os dias, nas escolhas que fazemos, nas vozes que amplificamos, nas coisas que nos recusamos a normalizar.
Feliz 25 de Abril. Que seja, sempre, um começo.
#GlitterUpYourLife