O ranking oficial dos doces de Páscoa portugueses

Há uma coisa que os portugueses levam muito a sério e que nunca vai ser resolvida pacificamente: qual é o melhor doce de Páscoa. Toda a gente tem uma opinião. Toda a gente acha que a avó faz melhor. E toda a gente mente quando diz que só come um bocadinho.

Este é o ranking oficial. Não oficial de nenhuma instituição, claro. Oficial no único sentido que importa: porque alguém tinha de o fazer.

Folar da Páscoa

O rei. O indiscutível. O doce que aparece em todas as mesas, em todas as versões regionais, e que ainda assim nunca decepciona. O folar é um pão doce, macio, com ovos cozidos encastoados na massa, que são ao mesmo tempo decoração e promessa. Dependendo da região, pode ser mais ou menos adocicado, com mais ou menos ovos. Há quem lhe ponha erva-doce, há quem prefira canela, há quem jure que o folar de Valpaços não tem comparação possível com o de mais lado nenhum. E todos têm razão, cada um à sua maneira.

O folar é também o doce com mais carga simbólica. Era tradicionalmente oferecido pelos padrinhos aos afilhados, pelos namorados às namoradas, pelas famílias umas às outras. Comer folar é também um acto de pertença.

Pão de Ló

Há dois campos e não há reconciliação possível: os do pão de ló seco e os do pão de ló húmido. Os primeiros acham que o húmido é massa crua disfarçada de sobremesa. Os segundos acham que o seco é um desperdício de ovos. Ambos estão errados e ambos têm razão.

O pão de ló de Ovar, com o centro escorregadio e quase líquido, é provavelmente o mais famoso. O de Margaride e o de Alfeizerão disputam o segundo lugar com argumentos sérios. Seja qual for a versão, o pão de ló é uma das produções de confeitaria mais delicadas da cozinha portuguesa: ovos, açúcar, farinha, e uma técnica que demora anos a dominar.

Ovos de Páscoa de chocolate

Tecnicamente vieram de fora. Mas a esta altura já são nossos. O ritual de partir o ovo de chocolate na manhã de Páscoa, de preferência antes do almoço, de preferência às escondidas dos pais, é uma memória de infância que atravessa gerações. Há os de marca, os artesanais das chocolatarias locais, os recheados com surpresas, os que têm o nome escrito em letras douradas. Todos cumprem a função de dar permissão para comer chocolate ao pequeno-almoço sem culpa nenhuma.

Amêndoas de Páscoa

As amêndoas confeitadas são o doce mais traiçoeiro desta lista. Começas com uma. Depois outra. Depois reparas que a tigela está vazia e que foram todas tu. Em tons pastel, rosa, azul, amarelo, branco, são também a decoração mais bonita da mesa de Páscoa. As de amêndoa de Elvas têm uma reputação histórica que não é exagerada: a amêndoa portuguesa, quando confeitada bem, não tem rival na Europa.

Arroz Doce

Não é exclusivo da Páscoa, é verdade. Mas há qualquer coisa no arroz doce que o torna indissociável do almoço de domingo em família, da mesa grande, do barulho de toda a gente a falar ao mesmo tempo. O canela por cima traçada em padrão, o creme amarelado, a consistência que é diferente de casa para casa. O arroz doce é o doce da memória afetiva pura. Não há ninguém que o coma sem pensar numa cozinha específica, numa pessoa específica, num domingo específico que ficou.

Cavacas

As cavacas são o doce que toda a gente esquece de mencionar e que desaparece primeiro da mesa. São pequenas, crocantes, cobertas de uma glassa branca que racha quando morde e têm aquela doçura seca e delicada que faz com que se coma cinco sem perceber. As de Resende têm indicação geográfica protegida, mas encontram-se por todo o país nesta época. São o doce que não precisa de apresentação e que raramente recebe os créditos que merece.

Lampreia de Ovos

No fim da lista, mas não porque seja menos boa. A lampreia de ovos é a mais espectacular visualmente. Feita de ovos moles enrolados em forma de peixe, decorada com detalhes de açúcar e fios de ovos, é quase demasiado bonita para se comer. Quase. Aparece especialmente nas mesas de Páscoa do Norte e do Centro, e é uma das produções de doçaria conventual mais impressionantes que temos. Quem cresceu com ela na mesa sabe que não há nada igual. Quem a prova pela primeira vez não consegue acreditar que é feita de ovos e açúcar e mais nada.

No fim, o melhor doce de Páscoa é sempre o que está na mesa da tua família, feito pelas mãos de alguém que o faz há décadas, com uma receita que não está escrita em lado nenhum e que toda a gente tem medo que se perca.

Essa é a parte que nenhum ranking consegue capturar.

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