Sandra Mendes: “Cada projeto é uma forma de posicionamento, não apenas uma entrega visual.”

Há pessoas que criam imagens. E há pessoas que criam sistemas. Sandra Mendes pertence claramente à segunda categoria. O seu trabalho não nasce da estética, mas da observação. Da forma como nos comportamos, ocupamos espaço e construímos significado, muitas vezes sem perceber. Através do Bengie e do H.O.T., Sandra Mendes, diretora criativa, desenvolve experiências que cruzam estratégia, arte e comportamento humano, questionando o que parece natural e revelando as estruturas invisíveis que moldam a forma como vivemos. Nesta conversa, fala sobre método, risco, vulnerabilidade e sobre o que significa criar com intenção.

O que é o Bengie?

O Bengie é um sistema criativo antes de ser um estúdio. A palavra sistema é intencional, porque não se trata de desenvolver projetos isolados, mas de estruturar pensamento. O Bengie organiza narrativa, imagem e estratégia dentro de uma lógica coerente que parte sempre da análise de contexto, seja ele social, político, económico ou simbólico. A estética nunca é o ponto de partida, é consequência de uma leitura mais profunda. Cada projeto é uma forma de posicionamento, não apenas uma entrega visual.

Porque defines o Bengie como um sistema?

Porque existe uma metodologia interna que sustenta tudo o que é feito. O trabalho começa por identificar as forças invisíveis que moldam uma determinada situação, que narrativas estão a ser reforçadas, que valores estão implícitos e que dinâmicas operam silenciosamente. Só depois surge a tradução visual ou experiencial. O sistema garante coerência e permite que diferentes formatos pertençam à mesma estrutura de pensamento.

Qual é o teu papel dentro desse sistema?

Faço direção estratégica e conceptual. O meu papel é estruturar a leitura do contexto e mapear as tensões que existem dentro dele, entre desejo e poder, entre imagem e construção social, entre intimidade e performance pública. Não me interessa começar pela forma. Interessa-me compreender as relações que estão a acontecer, mesmo quando não são explícitas. A partir dessa análise, reorganizo a experiência para que essas dinâmicas se tornem visíveis ou sejam deslocadas.

O que é o H.O.T.?

O H.O.T. é a extensão física desse sistema. Embora aconteça à volta de uma mesa, não se define como um evento gastronómico. É uma construção performativa onde comportamento social, presença coletiva e experiência individual coexistem no mesmo plano. O que acontece ali não é apenas preparado, é vivido e transformado pelas pessoas presentes.

O H.O.T. é um projeto artístico?

É artístico, mas não no sentido tradicional de objeto ou espetáculo. Funciona como uma situação. Cruza observação psicológica, construção espacial, dinâmica social e experiência pessoal. A minha vivência informa a estrutura, mas o resultado depende sempre do coletivo. Não existem duas edições iguais porque o fator humano altera inevitavelmente o que acontece.

Sobre o que fala o H.O.T.?

Não é um projeto centrado em género. É um projeto sobre humanidade. Interessa-me como história, economia, política, filosofia e tempo moldam comportamento. Como ocupamos espaço, como reagimos a estímulos e como o silêncio, a proximidade, a iluminação ou a disposição dos corpos alteram dinâmica. O H.O.T. funciona como um estudo comportamental em tempo real, onde a teoria é vivida e não apenas discutida.

O que une o Bengie e o H.O.T.?

Ambos partem da mesma premissa: nada é neutro. Toda imagem constrói sentido e toda interação revela uma estrutura. O Bengie organiza essa leitura no campo estratégico e visual. O H.O.T. coloca-a em prática numa experiência coletiva. São formatos diferentes dentro do mesmo sistema de pensamento.

Como começou o teu percurso?

O meu percurso não começou com a intenção de criar um estúdio, mas com a necessidade de compreender estruturas. Sempre me interessou observar comportamento, linguagem visual e dinâmicas sociais antes de produzir qualquer coisa. A prática criativa surgiu como consequência dessa observação. O que faço hoje é uma continuação dessa curiosidade inicial.

Existe uma dimensão política no teu posicionamento?

Existe como consciência estrutural. Não acredito em neutralidade cultural. Toda decisão visual ou espacial carrega valores. A política está na forma como se organiza um espaço, em quem tem voz e em como se distribui atenção.

Há vulnerabilidade no teu trabalho?

A vulnerabilidade está em assumir uma leitura do mundo publicamente. Estruturar uma experiência é afirmar uma interpretação das dinâmicas em jogo. Isso implica risco. Prefiro esse risco à neutralidade.

Há ego no que fazes?

Qualquer prática autoral implica afirmação. A diferença está em perceber se o ego está a servir a construção ou a sobrepor-se a ela. O meu foco é garantir que a estrutura conceptual é maior do que a necessidade de validação.

Tens medo de falhar?

Falhar faz parte de qualquer prática experimental. O que me preocupa não é o erro, é a repetição confortável. Prefiro o risco da transformação à segurança da fórmula.

O que queres deixar em movimento com o teu trabalho?

Não me interessa deixar objetos isolados. Interessa-me deixar deslocamentos. Quero que exista um momento de consciência, a perceção de que aquilo que parecia natural é, na verdade, construído. Paralelamente, desenvolvo objetos de coleção como extensões materiais do mesmo sistema de pensamento. Este ano apresento o meu primeiro candeeiro na Alcova Milano e estou a desenvolver uma tapeçaria de grande escala a partir de uma série de desenhos criados ao longo do tempo. O meio muda. O sistema mantém-se.

#GlitterUpYourLife