SOS GLITTER – Intuição ou auto-sabotagem? 

Conhecer alguém novo é, muitas vezes, um exercício de projeção. Nos primeiros dias, não vemos a pessoa como é, vemos sobretudo o que imaginamos que ela poderá vir a ser na nossa vida. 

Uma hipótese. 
Uma promessa. 
Um esboço onde começamos, discretamente, a desenhar futuros possíveis. E às vezes acontece algo estranho: na teoria, tudo faz sentido. 

A pessoa tem valores similares. É interessante. Está emocionalmente disponível. Quer descobrir-nos. Ri-se das nossas piores piadas. Tem os fantasmas do passado arrumados e um presente aparentemente estável. Não há grandes sinais de alarme, não há dramas evidentes, não há incoerências gritantes. E, no entanto, algo dentro de nós recua.

Não é um pensamento articulado. Não é uma lista de prós e contras. É uma contração quase física. Uma hesitação. Um silêncio interior que se instala onde deveria haver entusiasmo. Há quem lhe chame intuição, outros dizem que é auto-sabotagem talvez para lhe retirar legitimidade. A dificuldade está em perceber quando é uma coisa ou outra.

Conheço todo o tipo de mulheres. E como sempre ganham aquelas que desde cedo se habituaram a ouvir que o problema talvez seja delas. Das suas necessidades excessivas. Dizem-lhes que são demasiado exigentes, demasiado dramáticas, demasiado sensíveis. Então, quando sentem aquele desconforto subtil,  aquela sensação de que algo não encaixa, apressam-se a racionalizá-lo: “Sou eu.” “Tenho medo.” “Estou a fugir outra vez.” Outras vezes, de facto, estamos mesmo a fugir.

Porque escolher alguém disponível implica também estar disponível. E isso é infinitamente mais assustador do que apaixonarmo-nos por quem sabemos, no fundo, que não ficará. Há uma segurança estranha nas histórias destinadas ao fracasso: nelas, pelo menos, não temos de nos expor completamente. A perca já está prevista. 

Quando a pessoa é “certa no papel”, a responsabilidade desloca-se para nós. Se falhar, não podemos culpar a incompatibilidade óbvia. Temos de admitir que talvez não quisemos, ou não conseguimos, ficar.

Ao que dizem, a intuição raramente é barulhenta, é como se apenas quisesse dizer: “Isto não.” Já a auto-sabotagem, tende a vir com um plus one: a ansiedade. Que cria narrativas rápidas. Amplifica pequenas falhas. Procura defeitos. Mas sejamos realistas, quase nunca é assim tão claro.

Há encontros que parecem perfeitos e, ainda assim, sentimos uma ausência. Não falta química, mas falta algo que não conseguimos explicar. Como se a conversa fluísse, mas o corpo permanecesse em alerta discreto. E talvez a pergunta não seja “estou a sabotar isto?”
Talvez seja: “quem sou eu quando estou com esta pessoa?”

A intuição, acredito, está ligada à expansão. Mesmo quando algo termina, não nos encolhe. Já a auto-sabotagem, pelo contrário, tende a nascer do medo de não sermos suficientes, ou de sermos demais.

Também é possível que aquela pessoa seja, de facto, adequada. E que nós, naquele momento específico da nossa vida, não estejamos prontas para o tipo de estabilidade que ela representa. E isso não define a pessoa que somos ou vamos ser em futuras relações. Acho que só torna evidente, que há situações por resolver no passado, antes de seguirmos para o futuro.

Nem todas as pessoas certas são certas para nós.
Assim como, nem todas as nossas recusas são erros.

Talvez o mais importante não seja acertar em todas as decisões, mas sim aceitar que nem sempre vamos conseguir distinguir com precisão entre o que é instinto ou defesa. Aprender a escutar o próprio desconforto sem o desvalorizar imediatamente. Talvez confiar no tempo, na repetição dos padrões, na clareza que surge depois, seja mais honesto do que exigir de nós respostas definitivas a curto prazo.

Porque, no amor, como na vida, nem toda a hesitação é medo.
Nem todo o adeus é sabotagem.
Há encontros que parecem destino, mas são apenas lições. E reconhecer que não era, ou que ainda não estávamos prontas, também é uma acto de coragem. E sim, está tudo bem com isso.

#GlitterUpYourLife