Entrevista: “Escrevo ficção para me interrogar, para lidar com o espanto e com o medo”, Patrícia Reis

Há livros que chegam no momento certo, quando estamos mais disponíveis para parar e pensar. O Lugar da Incerteza, o novo romance de Patrícia Reis, é um deles. Lançado hoje, o livro marca o regresso da autora à ficção e convida a uma reflexão íntima sobre as dúvidas, os caminhos que escolhemos e os labirintos emocionais em que, tantas vezes, nos deixamos ficar. Numa conversa com o Glitter Dream, Patrícia Reis fala-nos sobre o processo criativo, as personagens e o que significa escrever a partir da incerteza. O livro já se encontra disponível para compra [aqui], e esta entrevista é um convite a entrar, com tempo e curiosidade, no universo desta nova obra.

Porque escolheste um consultório de psiquiatria como ponto de partida para este novo livro, O Lugar da Incerteza?

Tenho um fascínio antigo por pessoas que estudam Medicina para depois escolherem  Psiquiatria, tal como tenho um fascínio semelhante pela vocação religiosa. As duas figuras centrais do livro — um psiquiatra e um padre — nascem desse interesse: um encontro improvável entre razão e ciência, de um lado, e dúvida, fé e consciência da finitude, do outro. A primeira personagem que me surgiu foi o António, o psiquiatra. Nele concentrei uma ideia de razão obstinada, quase com um complexo de Deus. Carrega muitas das características que me incomodam em certas pessoas, e talvez por isso tenha sido tão estimulante escrevê-lo. Trabalhar personagens que vão contra aquilo que somos é, para mim, um exercício literário particularmente fértil.

A incerteza atravessa todo o livro. Aprender a viver com dúvidas é uma forma de autoconhecimento?

Sim. A dúvida é, para mim, um dos traços mais profundos da condição humana. Precisamos de espaços de incerteza para pensar, para refletir e para nos interrogarmos verdadeiramente. Vivemos num tempo dominado por discursos ultra-velozes, muito afirmativos, onde a verdade e a razão surgem como slogans fechados, sem margem para hesitação. Esse ritmo não nos deixa perceber o que pensamos realmente sobre as coisas. O livro nasce também dessa inquietação: da vontade de devolver à dúvida o seu lugar legítimo.

Houve alguma personagem particularmente difícil ou próxima de escrever?

O maior desafio é sempre encontrar a linguagem própria de cada personagem: dar-lhe uma identidade, uma voz, uma vida que seja credível para o leitor. Talvez o Eduardo, o padre, tenha sido o mais exigente. Não apenas por ser padre ou por estar no fim de vida, doente com cancro, mas porque concentra uma das grandes perguntas da teologia: é possível ter fé mesmo quando Deus não responde? Essa tensão atravessa-o do princípio ao fim e obrigou-me a uma atenção muito rigorosa na sua construção.

O romance cruza temas como fé, identidade, família e crise interior. Vivemos hoje um tempo especialmente fértil para este tipo de questionamento?

Vivemos um tempo de grande velocidade e de fachada, com pouco espaço para pensamento crítico ou revisão profunda. Somos constantemente bombardeados por conteúdos — que não são jornalismo — e condicionados por algoritmos que moldam aquilo que vemos e pensamos. Existe uma enorme iliteracia digital e uma dificuldade crescente em construir uma identidade que seja essência e não produto. Tenho a sensação de que estamos a recuar em certos valores humanistas. Este é um tempo que pede pausa, reflexão e capacidade de sentir, em detrimento do simples ter ou achar.

Depois de A Desobediente, uma biografia tão intensa sobre Maria Teresa Horta, como foi regressar à ficção?

Foi um regresso exigente. A biografia da Maria Teresa Horta foi um processo longo, complexo, cheio de obstáculos, e acabou por ter um impacto que eu não antecipei. Um romance nunca terá a mesma recepção, disso tinha plena consciência. Ainda assim, senti que valia a pena voltar à ficção, voltar a calçar os sapatos de romancista e perceber se esse caminho continuava a fazer sentido. Escrevo ficção para me interrogar, para lidar com o espanto e com o medo. Comecei O Lugar da Incerteza sem grandes certezas e acabei por me apaixonar pelas personagens. O livro é mais do que a história de um padre e de um psiquiatra: é uma teia de pessoas à beira de um qualquer abismo, ligadas entre si de formas nem sempre visíveis.

Tens uma obra extensa, com mais de dez romances publicados. Como olhas hoje para o teu próprio percurso enquanto escritora e para a forma como os teus temas evoluíram?

Creio que continuarei sempre a escrever sobre o tecido frágil das famílias. É um território que me interessa profundamente e que tenho explorado ao longo dos anos. O que me move são as pessoas: as suas obsessões, os seus receios, a forma como constroem a identidade e como essa identidade é ferida por acontecimentos que deixam cicatriz. Sempre acreditei que o caminho se faz caminhando. Não costumo voltar aos meus livros — talvez por pudor — mas sei que alguns foram importantes para leitores que me escreveram a partilhar a sua experiência. Nada é mais gratificante do que isso.

Como descreverias O Lugar da Incerteza numa frase?

Será que a gentileza é o melhor investimento?

O Lugar da Incerteza
de Patrícia Reis
O Lugar da Incerteza, Patrícia Reis

#GlitterUpYourLife