As cartas de amor são ridículas, já dizia Fernando Pessoa

Uma vez Fernando Pessoa (no pseudónimo Álvaro de Campos) escreveu em verso que todas as cartas de amor são ridículas, acrescentando que, na verdade, ridícula mesmo é a criatura que nunca escreveu uma carta de amor.
Cito-o porque concordo, e não é por ser eu um ser muito dependente das palavras – palavras bonitas – mas acho que urge refletir: o que seria de nós sem as cartas de amor?

Quem diz cartas de amor, diz postais, bilhetes, notas, mensagens. O ponto fulcral é demonstrar. Do latim demonstrare, quer-se mostrar claramente. E guardar mata. Para além de matar, é inútil. No pouco, quase esvoaçante, tempo que temos, faz pouco sentido engolir as palavras que pertencem aos ouvidos de quem amamos. “Eles sabem. As ações falam por si.”, pensamos pateticamente. Não chega. Sem querer roubar atenção ao valor das ações, que sim é muito, há algo de vital e mágico na partilha do que se sente. Quanto mais não seja, para esvaziar o coração que transborda como uma piscina infinita.

Há amores tão grandes que nos dão vontade de gritar, mas não é preciso fazer tanto barulho. Um papel, uma caneta e uma mão cheia de força pelo combustível da sinceridade ecoam um silêncio cheio de significado. E esse, ainda que simples, basta.

Se não se convencem pela emoção, que vos fale a razão: está cientificamente comprovado que expressar verbalmente o amor ativa áreas do cérebro associadas a recompensa, empatia e ligação emocional. Liberta oxitocina, estimula a dopamina e reduz níveis de cortisol.
Tudo o que é preciso: um “amo-te” sincero.
Equações matemáticas também funcionam, mesmo assim não deve haver fórmula mais bonita de estimular o cérebro do que esta que vos sugiro.

Vamos escrever, vamos dizer, vamos deixar bem claro. As cartas de amor até podem ser ridículas, contudo escrevo-as e não me importo nem um bocado. E num mundo cada vez mais inseguro, não seria descabido dizer que o amor é tudo o que nos resta. Partilhá-lo talvez seja o que faz do Homem verdadeiramente corajoso.

Beatriz Fernandes
Aluna do 2º ano de Ciências da Comunicação na FLUP e Bolseira Gulbenkian
#TheGlitterDream