De advogado a músico, com uma passagem pela ONU, em Nova Iorque, e canções escritas para artistas como Mariza, Maninho e Nelson Freitas, Afonso Dubraz tem construído um percurso onde a música acabou por conquistar o lugar principal. Agora, apresenta “Café”, uma colaboração com a cantora brasileira Mar.iana que junta as influências musicais da sua infância a uma história sobre amor e a vontade de estar perto de alguém.
À conversa com o Glitter Dream, o artista recorda as experiências que o levaram a trocar a advocacia pela música, fala sobre o processo de escrita e revela as ambições que ainda quer concretizar.
A tua nova música nasce de uma colaboração com uma cantora brasileira, mas parte de um tema muito português. Como surgiu esta parceria e o que é que vos fez perceber que estes dois universos podiam encontrar-se numa canção?
A “Café” nasceu de um desejo grande em fundir o pop orelhudo português com a musicalidade doce do Brasil. A minha mãe viveu parte da sua juventude em São Paulo, por isso a banda sonora da minha infância foi muito influenciada por artistas como Adriana Calcanhoto e Rita Lee. Esse bichinho pelos ritmos brasileiros esteve sempre presente e ganhou um grande destaque quando ouvi a Mar.iana atuar em Portugal no inverno passado. Assim que subiu a palco eu soube que queria cantar com ela e dar vida a esta junção entre os nossos universos musicais.
Escrevi e compus a “Café” com base nesta ideia romantizada da necessidade que por vezes sentimos em estar próximos de alguém que amamos e da vontade crua de precisarmos dessa pessoa por inteiro: “Como a manhã precisa do café eu preciso de você”. Com a voz e a energia da Mar.iana esta música ficou perfeita!
Começaste a tocar guitarra aos 15 anos por causa de um amor de verão. O que é que ficou daquele rapaz na forma como escreves hoje? Ainda precisas de viver alguma coisa para conseguir transformá-la numa música?
Todas as músicas que hoje escrevo têm sempre influência das coisas que fui vivendo e que aos poucos, a bem ou mal, me trouxeram aqui. Esse amor de verão é um excelente exemplo! Eu sempre fui um rapaz que sente muito. Que se apaixona com grande intensidade e que vive de forma algo inocente e sonhadora. Esta forma de levar a vida ainda hoje me acompanha e vai facilmente passando para o papel, originando músicas que acabam por ser relacionáveis e que as pessoas sentem facilidade em tornar suas também. Esse, para mim, é um dos segredos da escrita!
Cantar sobre a vida é a forma que arranjei para a viver vezes sem conta, por isso, tudo o que escrevo, será sempre baseado em experiências que tive ou que um dia espero vir a ter. Por esta razão é que nunca devemos parar de procurar coisas novas. A vida está sempre em transformação e a música transforma-se com ela.

Já escreveste para artistas como Mariza, Maninho e Nelson Freitas. O que muda quando escreves uma canção sabendo que será outra pessoa a dar-lhe voz?
Escrever para outros artistas obriga-me sempre a um exercício de representação (quase como se fosse um ator), o que me dá um prazer muito grande. Quando escrevo para nomes como Mariza, Maninho ou Nelson Freitas, nunca pode ser o “Afonso Dubraz” a fazê-lo. Tem de ser uma extensão criativa do próprio artista, o que exige sempre de mim um trabalho preparatório. Quando vou para estúdio escrever para outra pessoa procuro conhecer bem o ser reportório, o tipo de linguagem que utiliza e as temáticas que costuma abordar nas suas canções, pois só assim consigo servir ao máximo a música que me foi pedida.
Costumo dizer que só entrego um tema quando começo a querer ficar com ele! Não existe melhor sinal do que esse para demonstrar que estou satisfeito com o trabalho. Por esta razão, admito que, secretamente já me aconteceu querer ficar com determinada canção, mas tento sempre desapegar-me desse sentimento, pois o que importa, no final do dia, é poder escrever e ter o privilégio de trabalhar com artistas que são uma verdadeira referência para mim.
O teu percurso parece quase várias vidas dentro da mesma vida: foste advogado, conselheiro na ONU em Nova Iorque, passaste pelo The Voice Portugal e acabaste por construir uma carreira na música. Em que momento percebeste que a vida que parecia mais “segura” não era necessariamente aquela que querias viver?
Eu acredito muito na ideia de que a vida pode e deve ser vivida por vários caminhos que, aos poucos, se vão respeitando e coexistindo. “Ser quem falha porque tenta” é um dos meus versos preferidos da minha música “Amanhã” e reflete um pouco esta forma de pensar. Ao longo da minha formação académica em Humanidades e Direito, a música foi sempre existindo como um hobby que, passo a passo, foi ganhando espaço na minha rotina e, acima de tudo, na minha cabeça. Fui muito feliz no escritório, em Nova Iorque e na RTP, mas pegar numa guitarra e cantar uma história que acabei de escrever sempre foi um sentimento superior.
Entre 2019 e 2023, nos meus tempos de advocacia, foi quando me apercebi que esse tal sentimento já não dava para controlar e estava a chegar a hora de deixar de lado a “aposta segura” para avançar com a “aposta certa”. Desde então sou artista de música e, se há algo que aprendi nesta breve carreira, é que a vida se torna mais “segura” quando somos felizes a fazer aquilo que queremos.
A tua comunicação tem muito humor e uma sensação de espontaneidade, sobretudo nas redes sociais. Até que ponto isso é simplesmente quem tu és e até que ponto aprendeste que, hoje, um músico também precisa de criar uma relação com as pessoas para além das canções?
Desde o início da minha caminhada na música que decidi que queria chegar às pessoas de uma forma direta, espontânea e diferente. Sempre trabalhei para ter um projeto com uma identidade muito própria e uma comunicação forte e comercial, mas sem desvirtuar os meus valores e o tipo de pessoa que sou. Quando comecei a promover as minhas canções encontrei no humor e na criatividade fortes aliados para me ajudar a comunicar e passar a minha mensagem. Para mim, a prioridade foi e continua a ser mostrar o meu trabalho sem deixar de ser eu próprio.
Com o avançar da carreira fui ganhando certos ensinamentos e uma das coisas mais valiosas que aprendi foi sem dúvida a importância das redes sociais. Criar uma relação com as pessoas é fundamental, pois mais do que nunca vivemos num mundo onde a mensagem depende muito da influência do mensageiro. Por esta razão, hoje em dia, procuro encontrar um equilíbrio entre a minha espontaneidade e o contexto mais comercial e profissional da comunicação que quero (e preciso) de fazer.
Tens dois álbuns, milhões de streams e visualizações, escreveste para outros artistas e até tens um recorde do Guinness. Quando olhas para tudo isto, o que continua por fazer que te entusiasma genuinamente?
Sempre vivi com os olhos postos no dia de amanhã. Apesar de ser muito feliz ao longo dos vários projetos em que participo, acabo sempre por ter o desfecho crónico de pensar: “e agora? O que vem a seguir?”. Sou muito grato por tudo o que tenho e todas as experiências que já vivi, mas sei que o que mais me motiva é a perceção de que ainda há muito por fazer. Em 2025 atuei no Capitólio, em breve quero atuar no Tivoli, depois no Coliseu e por fim no Meo Arena… há sempre mais e melhor para alcançar e para sentir aquele arrepio na espinha de quem salta para fora de pé.
Quando olho para tudo isto é exatamente assim que me sinto: com uma vontade enorme de continuar a crescer e a trabalhar para ter o privilégio de poder fazer todos os dias o tal “hobby” que virou profissão, o tal sonho que virou realidade. Não há maior desafio que este!
#GlitterUpYourLife