Glitter & The City – Next Memory

O cheiro é um dos nossos primeiros cartões de visita. Percorremos lojas e prateleiras à procura daquela essência que deixe, exatamente, a primeira impressão que queremos causar. Mas… e se fosse possível criar uma fragrância totalmente nossa, feita de raiz? Em vez de procurarmos incessantemente um perfume “quase perfeito”, pudéssemos criar um que se ajustasse inteiramente a nós? Um perfume para o quotidiano, para uma ocasião especial ou até uma fragrância capaz de nos transportar para um lugar específico, uma data, uma memória. Uma memória engarrafada. Porque o olfato tem precisamente esse poder: o de marcar momentos de forma tão intensa que basta um cheiro para sermos, imediatamente, transportados para outra fase das  nossas vidas. Há quem se lembre da infância carimbada com o perfume de panquecas pela manhã… Há quem encontre conforto no aroma de um campo de flores…

No meu caso, a escolha foi imediata, quando me desafiaram a criar um perfume que embalasse uma memória: São Tomé, a minha querida infância envolvida pelo mar, pelo cacau, pela humidade e o cheiro de terra molhada numa ilha tropical. Foi assim que o Next Memory chegou a mim… ou eu cheguei a ele. Numa rua discreta de Lisboa, escondido dentro de uma antiga farmácia, existe hoje um novo laboratório, um espaço onde hoje em dia se manipulam memórias, em vez de fórmulas farmacêuticas. O Next Memory Atelier nasceu durante a pandemia, numa altura em que o mundo parecia suspenso. Enquanto uns procuravam dominar a arte de fazer pão e outros investiam em ginásios improvisados em casa, o diretor criativo da marca quis fazer algo diferente: começou a experimentar fazer velas artesanalmente, no fogão da própria cozinha. 

Numa altura em que tudo parecia incerto, havia uma pergunta constante: “Qual será a nossa próxima memória?”, se é que ela viria a existir… Transformou a sua casa em atelier e começou a criar as suas próprias velas. Experiências caseiras que o pudessem transportar para algum sítio longe dos telejornais e das quatro paredes. Aquilo que começou como uma experiência caseira rapidamente ultrapassou o universo das velas. 

Primeiro chegam os perfumes sólidos personalizáveis, um bestseller que explode nas redes sociais. Doze fragrâncias empacotadas em caixinhas coloridas, ao gosto do cliente, com gravuras de iniciais ou símbolos. 

Depois surge o The Bespoke Garden, uma resposta a uma demanda: as pessoas queriam ir ainda mais longe: não apenas personalizar a embalagem, mas criar algo verdadeiramente seu. Uma experiência privada que nasce não só com o intuito de preservar memórias antigas, como acompanhar aquelas que ainda estão por acontecer. 

 E regressamos, assim, a São Tomé… Recebi um formulário nos dias que antecederam a minha visita, no qual me questionaram as minhas preferências olfativas, bem como se gostaria de acompanhar a sessão com algum aperitivo ou bebida. Foi, assim, que fui recebida com um copo de vinho verde, macarons e dezenas de essências alinhadas à minha frente, pronta para aprender tudo sobre a criação de um perfume, camada a camada. 

Primeiro, chegam as notas de topo: a primeira impressão do perfume, mais leves e voláteis, aquelas que sentimos assim que o aplicamos na pele. Duram poucos minutos, mas são responsáveis pelo impacto inicial. Depois entram as notas de coração, consideradas a verdadeira identidade da fragrância. É aqui que percebemos se um perfume é floral, frutado, cítrico ou amadeirado; é o coração que lhe dá personalidade. Por fim, chegam as notas de base: mais densas, quentes e profundas, permanecem durante horas na pele e até na roupa, como uma memória difícil de apagar. No meu caso, o percurso olfativo foi inevitavelmente tropical, sem nunca colocar de lado algo que me fosse agradável e confortável. Ingredientes mais terrosos, quentes e ao mesmo tempo frescos com apontamentos de  maresia… Parece contraditório, mas lá funcionou, com a ajuda do perfumista, que me acompanhou ao longo daquela hora e meia. Essência a essência, ia delineando quais as prováveis de incorporarem o meu perfume, quais a colocar de lado e aquelas que me conquistaram à primeira inalação. Como indecisa que sou, foram várias as possibilidades que ficaram colocadas sobre a mesa, mas no final lá conseguimos reduzir até seis ingredientes. A partir daqui, a técnica de doseamento ficava ao encargo do responsável. O meu trabalho, em diante,  era o de observar e deliciar-me com um macaron de chocolate, enquanto falava com o perfumista. Magia feita, chegámos às proporções ideais. Aquelas que fizessem o artista sentir-se orgulhoso do seu trabalho e a mim capaz de me transportar para algures entre a Lagoa Azul ou a Praia das Conchas, num dia banal em Lisboa. Desenhamos um perfume que me lembrasse São Tomé, sem nunca o tentar copiar, literalmente. E talvez essa seja a magia da experiência: perceber que o olfato nunca funciona de forma totalmente racional. Um cheiro não reproduz necessariamente um lugar, recria a sensação que esse lugar nos deixou.

Hoje, pessoas de todo o mundo chegam ao atelier lisboeta. Numa época em que quase tudo parece produzido em massa, o Next Memory oferece algo raro: tempo. Tempo para sentir, escolher, recordar e criar.

No fundo, o The Bespoke Garden não é apenas uma experiência de perfumaria. É uma experiência sobre identidade. Sobre como os cheiros conseguem guardar fases da nossa vida tão bem quanto  fotografias. E sobre como, às vezes, criar um perfume é apenas outra forma de tentar preservar uma memória antes que ela desapareça.

Artigo por Catarina Ogando
#GlitterUpYourLife