Fomos ao La Fiorentina e contamos tudo!

Afinem os sentidos e acompanhem-me neste enredo… Príncipe Real, uma tarde que não permite decifrar se o sol raia ou lamentamos não ter trazido um chapéu de chuva, ouvem-se os tuk tuk, incessantemente, a passar; vozes cruzadas pela estrada, autocarros… e é então que entramos no La Fiorentina e de repente… uma nova atmosfera. Copos milimetricamente alinhados com os conjuntos de pratos. Cálices para vinho fazem fila à espera de serem tingidos. Panos brancos imaculados e um convite carimbado com a promessa de nos levar numa viagem pelos sabores italianos. Sentamo-nos e esperamos que o espetáculo comece…

Levanta-se a cortina e em cena uma degustação de dez pratos. Três atos, dez cenas. O encenador não consta na folha de sala, mas em breve presentear-se-á. Comecemos pelo primeiro ato: antipasti, ou se preferirem, “entradas”.

Na primeira cena, uma parmigiana di melanzane. Ajustem os óculos italianos. Por cima do palco, a legendagem do espetáculo: uma lasanha com folhas de berinjela e tomate, servido sobre creme de Parmigiano Reggiano.

Na segunda cena, tris di montanara: três mini pizzettas fritas com tomate, manjericão e Parmigiano Reggiano; abóbora e stracciatella; bacalhau mantecato. 

Na terceira cena, um clássico do Vagabundo e de qualquer terra italiana. Cada uma com a sua versão, mas sempre presente à mesa: polpette, as tradicionais almôndegas de carne de novilho cozinhadas em molho de tomate.

Neste primeiro ato, a minha distinção vai para a primeira cena: uma melanzane alla parmigiana fiel à original, mas o que não me deixou de surpreender foi o segredo revelado para um molho de tomate no ponto a acompanhar a almôndega – um pouco de cacau. Espantem-se: parece ser este o ingrediente perfeito para quebrar a acidez do tomate e trazer profundidade ao molho… 

Ainda a peça não tinha chegado ao segundo ato e parecia o menu de degustação já ter chegado ao clímax.

Porém, ainda há mais personagens a conhecer e por isso,avançamos com o o segundo ato…E é nos dado a conhecer o protagonista que rouba todas atenções: ravioli di coda alla vaccinara con crema di pecorino. Ravioli caseiros recheados com rabo de boi defumado, fonduta de pecorino, aipo e, novamente, o toque do cacau amargo. Explicam-nos que o cacau serve para equilibrar e aprofundar o sabor da carne, enquanto o aipo, cozinhado em água agridoce, desperta notas inesperadas e brinca com as papilas gustativas. Resta a dúvida se estamos num restaurante, num teatro ou num laboratório… 

A fechar o ato, mezze maniche carbonara: gema de ovo, guanciale crocante e queijo pecorino. Sem distrações. Sem excessos. Como qualquer clássico italiano deve ser.

No terceiro ato chegam os segundos pratos: baccalà di Lenise, servido sobre um molho suave de tomate e cebola branca, com azeitonas pretas e emulsão de bacalhau; e pollo farcito alla cacciatora, peito de frango recheado com pasta de azeitona preta e espinafres, acompanhado de cogumelos salteados.

Como é costume dizer-se: o melhor fica sempre para o fim e ainda que numa peça italiana, permanecemos portugueses e fieis à nossa identidade – há sempre espaço para sobremesa. O último ato divide-se em duas cenas: tiramisu e cannoli. Em primeiro lugar, mais um clássico; em segundo, um doce típico da Sicília, uma “bolacha” crocante recheada com ricotta. Dois doces preparados à nossa frente, despojados de segredos, totalmente vulneráveis. Uma barreira entre o palco e a plateia que o encenador considera ser necessário quebrar. Um gesto simples, mas um grande ato. 

Chegaria, agora, a hora do fecho da cortina e término do espetáculo, mas onde o La Fiorentina se destacou foi pela viagem aos bastidores. Ainda de cortina levantada, surge Armando Pacocci, o chef romano que se formou em Paris antes de se fixar em Portugal há cerca de dez anos. Na cozinha do La Fiorentina existe quase uma lógica de laboratório: os menus mudam duas vezes por ano, os ingredientes são estudados como notas musicais e cada elemento procura funcionar em harmonia com o outro. Organização, precisão e uma aprendizagem contínua sobre como o amargo, o doce, a gordura ou a acidez podem coexistir no mesmo prato sem roubar protagonismo (ainda que tenhamos sempre um preferido). 

Talvez por isso exista tanta verdade naquele que o chef descreve como “um ato de confiança gratuito”: entrar num restaurante sem nunca lá ter estado antes. Sentar-se, escolher, entregar-se.

Em julho, a narrativa da La Fiorentina ganhará ainda um novo cenário, com a abertura de um espaço no piso -1, mais íntimo e reservado, pensado para experiências mais isoladas do ritmo principal da sala.

Mas mesmo com novos espaços, novos menus ou novos atos, a essência permanece igual à da antiga casa do Rio: um restaurante onde comer é também assistir a uma história. E onde, por acaso, ou talvez destino, continua a existir um teatro mesmo ao lado.

Artigo por Catarina Ogando
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