Finalmente cheguei.
E que bom que é estar aqui.
Durante anos, os 30 pareceram-me uma fronteira solene, quase administrativa. Como se, ao atravessá-la, fosse obrigada a apresentar provas de estabilidade emocional, um plano de pensões e uma opinião coerente sobre tudo o que existe.
Se por um lado, os 20 foram a minha década preferida de viver, por outro, foram também a mais intensa e desgastante.
Há uma urgência quase comovente nos 20. Uma sensação de que cada decisão é definitiva: este emprego vai definir quem eu sou. Esta relação é “a tal” e faz parte da minha identidade. Este erro vai arruinar a minha vida para sempre. É como se houvesse uma intensidade e inevitabilidade quase literária em tudo.
Para mim, ter 20 anos era acreditar que o mundo nos exigia uma performance diária. Era preciso ser interessante, desejável, disponível, ter a carreira, ter o amor, ter o equilíbrio financeiro, viver o sonho e claro, tudo ao mesmo tempo.
Aos 30 começamos a perceber que a maior parte das coisas não é definitiva. As relações não são tratados internacionais. Os erros não são biografias. E a identidade não é uma tese que se entrega pronta. É um ensaio longo, revisto vezes sem conta, com notas à margem, capítulos rasurados e reescritos vezes sem conta. E aqui entre nós, essa é a minha parte preferida. Termos a humildade de sermos quem somos, mesmo que para isso, tenhamos de ir contra o que defendemos há anos atrás.
Que alívio é descobrir que o mundo não está a observar-nos com a atenção que imaginávamos. As pessoas estão demasiado ocupadas a gerir as suas próprias histórias. E ainda bem. Dá-nos espaço, para podermos ser autênticos. De errarmos. De aprendermos. De decidir.
Aos 30, há uma serenidade nova, quase arrogante, em saber que as tempestades passam. Que o sol volta sempre a brilhar. E que mais dia menos dia tudo volta a ficar bem.
Aos 30, se tudo correr bem, a tendência passa a ser abandonar a necessidade insaciável de provar que merecemos, ou de sermos escolhidas, para passarmos a ser nós, finalmente, a escolher.
Se os 20 foram sobre provar, os 30, para mim, são sobre permitir.
Permitir-nos desacelerar.
Permitir-nos mudar.
Permitir-nos ser menos dos outros e mais de nós.
Esqueçam o Ronaldo e as crianças.
Para mim, o melhor do mundo são mesmo os 30.