Por Tatiana Figueiredo (Já agora, tenho 43!)
Imagina-te frente ao espelho. Que mulher vês?
Às vezes, com olheiras, acabada de acordar, depois de uma noite mal dormida (mães entenderão!) e a querer matar alguém? Ou fresca que nem uma alface, como se estivesses a desfilar numa passadeira vermelha e o mundo fosse teu logo às sete da manhã?
Quando me olho ao espelho – não de passagem, não enquanto lavo os dentes ou me penteio à pressa — mas naquele momento em que me vejo mesmo, que mulher encontro? Vejo uma mulher, uma mãe, uma esposa, uma profissional, uma amiga, uma empresa de logística, uma desportista, uma praticante de yoga, alguém que divide o seu tempo entre mil tarefas e que abraça mil papéis e facetas.
Que mulher não se sente assim? E sei que não é preciso ter 40!
A sociedade diz-nos para sermos impecáveis no trabalho, presentes em casa, bonitas, confiantes, bem-humoradas… tudo ao mesmo tempo e, de preferência, sem dar sinais de cansaço. Mas a verdade é que, entre o salto alto e os ténis, entre o fato elegante e o pijama manchado de café, existe uma mulher real. Uma mulher que se reinventa todos os dias para dar conta de tudo.
É profissional — que luta para se manter relevante num mundo que exige estar sempre atualizada. É mãe — a tempo inteiro, mesmo quando o relógio marca “folga”. É amiga — que arranja espaço na agenda para ouvir e apoiar, mesmo quando o seu próprio copo já está quase vazio. É namorada ou esposa — que ainda tenta surpreender, manter a chama acesa e sorrir, mesmo depois de um dia exaustivo. É uma cuidadora nata – mesmo sem filhos, quantas de nós não cuidam de tudo e de todos? E, por vezes, é também a enfermeira da família, a psicóloga dos filhos, a organizadora de eventos e a gestora do lar.
Já me sinto cansada, só de escrever! Ufff
Ainda assim carregamos a pressão de “não falhar” em nenhum dos papéis. E no meio desta correria, o maior desafio é não nos esquecermos de ser… nós. Será que quando nasce uma mulher, nasce igualmente um medo de falhar, uma culpa?
A frase “Não se nasce mulher: torna-se.”, de Simone de Beauvoir (uma das minhas escritoras favoritas!), é talvez a mais célebre do seu livro O Segundo Sexo (1949) e tornou-se um marco do pensamento feminista contemporâneo. A verdade é que entre a biologia, a cultura e educação, a sociedade e as suas relações de poder, as mulheres criam uma identidade única e essencial. Aos 40, acho que (finalmente!) entendemos a nossa verdadeira essência, o nosso jogo de cintura e o papel fulcral que assumimos nas vidas que tocamos: a capacidade de conciliar, de criar, de cuidar e, ao mesmo tempo, de lutar pelos nossos próprios sonhos, transforma-nos em seres singulares e profundamente poderosos, capazes de transformar não só as nossas próprias vidas, mas também o mundo que nos rodeia. UAU, não é?
Portanto, quando te olhares ao espelho, pensares que estás nos 40 e que és uma amálgama de “coisas” (com ou sem olheiras!), sejas o que fores na tua vida, confia que cada papel que assumes, diariamente, acrescenta camadas à tua identidade, mostrando que a mulher não é limitada a uma definição rígida, mas é um conjunto de possibilidades infinitas.
Imagina-te sempre de coroa, de capa de Super Mulher, com a armadura da Wonder Woman… porque é isso que és. Mesmo que falhes (falhamos todas!), mesmo que sintas culpa por algo (sentimos todas!), mesmo que naquele dia te apeteça desaparecer por umas horas (tomara eu de vez em quando!).
Tens esse direito. Tudo isto e tanto mais celebra a nossa capacidade de sermos inteiras, plurais e poderosas & fuck***g great humans!
(Hoje apeteceu-me escrever assim. Acredito que, de vez em quando, todas precisamos de recordar que o empoderamento feminino nos lembra que a mulher tem o direito de traçar o seu próprio caminho, para lá das imposições que a sociedade tantas vezes nos coloca. E que o espelho reflete muito mais do que aquilo que mostra. Ah! E, claro, esta mensagem é válida em qualquer idade!).
Tatiana Figueiredo
#TheGlitterDream