A internet crashou quando páginas de todo o tipo de conteúdo avançaram com a sequela de The Devil Wears Prada. Ora, millenials, como eu e até, acredito, Gen Z, vibraram com a notícia, como quem saboreia um gelado que não saboreava desde a infância/adolescência.
Ficamos entusiasmadx com os novos looks, com o novo cast e claro, com o eco das perguntas: o que estará a fazer a Andy? E a Miranda? Terá a Emily finalmente ido a Paris? Enfim, mais um fenómeno revivalista y2k.
Entretanto, o primeiro filme estava a dar na televisão um destes dias e apesar de saber muitas das falas de cor (muito graças à cultura meme, claro) mas de genericamente, ser um filme que vi repetidas vezes, desta vez estava a ver e puff. WTF? Foram as exatas palavras. Este filme endeusa e normaliza o bullying no trabalho de uma forma absurda! Cresci (emos) com a ideia de que é normal e até cool???? alguém num cargo superior e mais velho julgar a forma como vestimos, com quem nos damos, quais são os nosso hobbies. Tudo exacerbado, é certo. Mas desengane-se quem acha que isto não acontece na vida real. E a cultura pop e hollywoodesca dos conteúdos que consumimos é amplamente responsável pelos nossos comportamentos em sociedade. Claro que todos pensamos pela nossa cabeça, claro que todos sabemos distinguir o certo e o errado. Mas é factual que muitos comportamentos errados se perpetuaram no tempo pela normalização da sociedade em relação aos mesmos. E agora poderia perder-me em exemplos concretos….
Às vezes chateia-me que as pessoas façam aquele tipo de comentários como “hoje em dia não se pode dizer nada”. Queridos, ainda bem! Ainda bem que há bandeiras exageradas com as quais eu também não me identifico. Ainda bem que há energia ativista em praticamente todos os assuntos. Ainda bem! A normalização e banalização das coisas como sempre foram é preguiçosa, indigente. E, nisto temos de concordar, não há paciência para a indigência, para a pobreza de espírito, para a aversão à mudança que, pasme-se, é inimiga da evolução.
Mas bem, não fugindo ao tema do filme, é certo de que a mensagem é que podemos aguentar muito mas no fim a escolha é sempre nossa. No caso, a Andy chutou o balde e foi fazer o que realmente queria fazer. Por outro lado, dá-nos aquele quentinho no coração de que os maus, os vilões, “até” têm um coração que não serve só para bombear sangue. Mas se pensarmos bem, este é um autêntico toxic trait da nossa parte porque normalmente, os finais felizes são autênticas migalhas. Apenas porque não estamos habituados ao bom, não podemos deixar que o poucochinho nos caiba, pior, que nos preencha. Que seja suficiente.
Isto é exatamente o que acontece com a irrepreensível diva divissima divina Meryl Streep. Um filme em que é bully, injusta, mean girl, mean boss, bem, chamemos as coisas pelos nomes: má. Má pessoa mas depois, quando recomenda Andy para o jornal onde foi a uma entrevista, a audiência derrete e de repente restaura-se a fé na humanidade. Este quentinho que todos sentimos é válido e quase cumpre o propósito de passarmos o filme a achar uma certa graça aos perrengues, ainda que chiques, que a Andy e a Emily passam.
No fim de contas, The Devil Wears Prada continua divertido, icónico, citável. Mas temos de o olhar com óculos novos: poder não pode ser desculpa para crueldade. Glamour não lava abuso. E o “quentinho” do final não chega para aquecer uma cultura inteira que, durante demasiado tempo, achou “normal” coisas que nunca foram.
E se algum dia passarem por situações semelhantes: não normalizem. Falem, registem, procurem apoio: dos Recursos Humanos, da ACT, de colegas de confiança, ou de qualquer estrutura que vos possa proteger. Seja em que área for, o assédio moral é muito sério. Deixa marcas profundas, corrói a confiança e mina carreiras. A impunidade não é apenas injusta: é perigosa, porque perpetua padrões de comportamento em pessoas diferentes, mais ou menos fortes, e faz com que a roda continue a girar.
O silêncio protege quem abusa, nunca quem sofre. Reconhecer, denunciar e agir é um ato de coragem individual, mas também um passo essencial para mudar culturas inteiras de trabalho.
#TheGlitterDream