Desenvolvido por John Koenig no seu projeto intitulado The Dictionary of Obscure Sorrows, onde inventa palavras para sentimentos e experiências que não têm uma designação específica, surge o conceito de Sonder.
Muitas vezes, perdidos na nossa própria bolha, quase dominados pelas nossas preocupações e concentrados no infindável podcast apresentado pela nossa voz mental, tendemos a esquecer que não somos o centro do mundo e que cada indivíduo que atravessa este último é, na realidade, o protagonista da sua própria história.
Segundo Koenig, sonder é a realização súbita de que cada pessoa à nossa volta tem uma vida tão vívida e complexa quanto a nossa – com os seus próprios pensamentos, rotinas, ambições, medos, relações e memórias – que continuam a desenrolar-se mesmo que nós não estejamos presentes.
Depois de um convívio com amigos, por exemplo, cada um vai à sua vida, faz as suas coisas, mergulha nos seus pensamentos e traça o seu caminho. Toda a gente, sem exceção, porque o tempo não para para ninguém, o relógio continua. E se pararmos para refletir sobre, esta não é uma ideia que esteja sempre bem assente na nossa cabeça. É comum abandonarmos a noção de que cada ser humano centra o seu pequeno mundo, mas sabê-lo é essencial.
Se estivermos sentados numa esplanada a ver pessoas a passar, ou num aeroporto à espera de um voo, sonder é o preciso momento em que percebemos que cada uma daquelas pessoas têm uma história de vida inteira por trás, como a nossa. Não são apenas figurantes no nosso “filme”, mas protagonistas dos seus próprios.
A nossa existência é só uma entre milhões de outras igualmente ricas, e estar consciente disso é exercício primário na promoção da empatia. Todos temos dias com 24 horas imprevisíveis e recebemos, a cada uma que passa, desafios para superar.
Esta é, no final, uma forma poética de descrever um despertar de consciência: estamos no mesmo barco. É um momento crucial de humildade existencial em que conseguimos perceber que cada pessoa é tão complexa quanto nós: cada uma com os seus problemas, vivências, saudades, dores, alegrias, obstáculos. Por isso, olhar mais para o outro e escolher fazer o bem é meio caminho andado para uma existência harmoniosa.
Pelo menos, não custa tentar.
Beatriz Fernandes
Aluna do 2º ano de Ciências da Comunicação na FLUP e Bolseira Gulbenkian
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