O que pode estar por detrás de um sorriso?

Nem todos os sorrisos são sinónimo de felicidade. E alguns dizem muito mais do que aquilo que mostram.

Há pessoas que entram numa sala e sorriem antes mesmo de dizerem olá. Sorriem quando estão nervosas, quando não sabem o que responder, quando alguém lhes pergunta “está tudo bem?” e a resposta verdadeira seria um romance em três volumes.

Há quem sorria por educação, por timidez, por alívio, por amor, por ansiedade. Há quem sorria porque está genuinamente feliz e há quem tenha desenvolvido uma espécie de competência olímpica para parecer bem. O desafio é que, quando vemos um sorriso, o nosso cérebro gosta de simplificar: feliz. Assunto arrumado. Só que a psicologia mostra-nos que não é bem assim.

Um sorriso não é uma emoção

O sorriso é um comportamento. E, embora esteja fortemente associado à alegria, não é propriedade exclusiva da felicidade. A investigação sobre expressão emocional mostra que sorrimos em contextos muito diferentes: quando sentimos prazer, mas também perante situações sociais, constrangimento, nervosismo, surpresa ou até desconforto.

Aliás, o sorriso tem uma função profundamente social. Ajuda-nos a criar proximidade, a sinalizar disponibilidade e a regular as interações com os outros. É por isso que podes sorrir para alguém que acabaste de conhecer, mesmo sem sentires particularmente nenhuma vontade de sorrir. O teu cérebro não está, necessariamente, a representar uma emoção; pode simplesmente estar a dizer “Vamos tornar isto socialmente mais confortável.” E, convenhamos, ainda bem. Imagina todas as primeiras reuniões, entrevistas de emprego e encontros familiares sem essa pequena ferramenta de diplomacia.

O sorriso que diz “está tudo bem”

Existe, porém, outro fenómeno interessante (e complexo), podemos utilizar o sorriso para esconder aquilo que estamos realmente a sentir.

Não significa que estejamos a mentir. Muitas vezes significa apenas que aprendemos a gerir aquilo que mostramos aos outros.

Ao longo da vida, recebemos inúmeras mensagens sobre as emoções que são aceitáveis mostrar. Aprende-se, por exemplo, que não devemos “fazer uma cena”, que temos de ser fortes, que não vale a pena preocupar os outros ou que há momentos em que “é preciso engolir e seguir”.

E algumas pessoas tornam-se (extraordinariamente) boas nisso. Tão boas que os outros deixam de perguntar. O sorriso passa então a funcionar como uma espécie de cortina elegante, não elimina aquilo que está por detrás dela, apenas torna mais difícil vê-lo.

E há quem sorria quando está desconfortável

Se alguma vez te aconteceu começar a rir numa situação absolutamente inadequada – numa conversa difícil, por exemplo – não concluas imediatamente que tens um sentido de humor questionável.

O riso e o sorriso também podem surgir perante tensão ou desconforto.

O nosso comportamento emocional não é um sistema de legendas perfeitamente sincronizado. Não funciona assim: tristeza detectada → expressão triste. Somos organismos muito mais complexos e, felizmente, bastante menos previsíveis.

Em situações de ansiedade ou desconforto, sorrir pode ajudar a reduzir a tensão social, a tornar uma situação menos ameaçadora ou simplesmente a ganhar alguns segundos enquanto tentamos perceber o que estamos a sentir.

É uma estratégia. Nem sempre consciente, nem sempre particularmente eficaz. Porém, profundamente humana.

O perigo de confundir aparência com estado emocional

Por tudo isto pode ser tão importante não fazer diagnósticos emocionais através de fotografias, stories ou encontros de cinco minutos.

Aquela pessoa que parece estar sempre bem pode estar a atravessar uma fase difícil. Aquela que se ri de tudo pode estar absolutamente exausta. Aquela que publica fotografias maravilhosas das férias pode ter passado metade da viagem preocupada. E aquela que sorri genuinamente pode simplesmente estar feliz. Também é possível. Nem tudo tem uma camada escondida.

Esta última parte é importante, não precisamos de transformar todos os sorrisos numa espécie de investigação. A psicologia não nos ensina a desconfiar de todas as aparências. Ensina-nos a reconhecer que um comportamento isolado raramente é suficiente para compreender o mundo interno de alguém.

O sorriso também pode ser uma forma de pertença

Somos seres profundamente sociais. Desde muito cedo, aprendemos a observar os outros, a interpretar sinais e a adaptar o nosso comportamento ao contexto.

Sorrir quando os outros sorriem, acompanhar o tom emocional de uma conversa ou esconder momentaneamente uma emoção pode fazer parte dessa adaptação.

Como tal, aquele sorriso que aparece automaticamente quando alguém te sorri de volta não é apenas simpatia. Há ali um sofisticado sistema de reconhecimento e resposta social a funcionar em segundo plano. O teu cérebro está, basicamente, a fazer relações-públicas sem te pedir autorização.

E depois há aquilo que não vemos

Há uma coisa curiosa nas relações humanas, somos muito rápidos a atribuir significado ao que vemos nos outros. Um sorriso tranquiliza-nos. Se alguém sorri, assumimos que está bem. Se responde “está tudo bem” com um sorriso, raramente fazemos uma segunda pergunta. E, na maioria das vezes, isso é perfeitamente natural. Não andamos pela vida a fazer uma avaliação psicológica a cada pessoa que encontramos – e ainda bem.

No entanto, há momentos em que um pouco mais de atenção faz diferença. Há quem sorria porque está feliz. Há quem sorria porque não quer preocupar ninguém. Há quem sorria porque está desconfortável, porque não sabe o que dizer ou porque aprendeu, ao longo dos anos, a guardar determinadas emoções para si.

E há quem simplesmente sorria. Sem mensagem escondida, sem sofrimento secreto, sem qualquer necessidade de interpretação.

Esta distinção é importante. Reconhecer que um sorriso pode esconder emoções não significa que devamos passar a desconfiar de todos os sorrisos. Ser atento não é ser desconfiado.

Também não precisamos de exigir às pessoas uma coerência emocional impossível. Podemos estar felizes e cansados no mesmo dia. Sentir alívio e tristeza ao mesmo tempo. Estar apaixonados e assustados. Rir durante uma semana difícil e, mais tarde, chegar a casa e precisar de chorar.

As emoções não trabalham por turnos. Podem ocupar a mesma sala, ao mesmo tempo, sem se atropelarem. E é também esta complexidade que nos torna humanos.

Da próxima vez que alguém te perguntar “está tudo bem?”

Podes dizer que sim, como podes dizer que não. Podes dizer “não sei muito bem”. E podes sorrir enquanto dizes qualquer uma das três.

Do outro lado, também podemos aprender a não tirar conclusões demasiado depressa. Um sorriso não nos dá acesso direto à vida emocional de ninguém. Dá-nos apenas uma pequena informação e o resto da história não está visível.

Neste Dia Mundial do Sorriso lembra-te: um sorriso pode ser alegria, nervosismo, carinho. Pode ser hábito, educação. Pode ser uma forma de atravessar um momento desconfortável. E pode ser, simplesmente, um sorriso.

Não é preciso descobrir sempre o que está por detrás dele. Às vezes, há uma história. Outras vezes, há apenas felicidade. E saber distinguir uma coisa da outra também é uma forma de inteligência emocional.

Artigo por Helena Paixão
Psicóloga Clínica, Autora, Speaker
CEO & Founder da Clínica Helena Paixão – Psicologia, Mindfulness e Desenvolvimento Pessoal
Helenapaixao.com
Helenapaixao.psicologa (IG)

#GlitterUpYourLife