As Mean Girls têm Glitter… e não é como estás a pensar

Passaram-se 22 anos desde que vimos a Cady a suspirar pelo Aaron nas aulas de Matemática pela primeira vez. Com Cady incapaz de vencer a vergonha e trocar mais que um par de monossílabos, é Aaron quem quebra o gelo: “que dia é hoje?”, pergunta; “it’s October 3rd” (“é dia 3 de outubro”), responde ela. Tanto tempo depois, “it’s October 3rd” continua a ser das referências mais centrais dentro da pop culture; uma daquelas cenas de filme que fica para sempre impressa no imaginário coletivo do cinema. Aquele nervoso miudinho que já todas sentimos na barriga, quando a paixoneta do liceu fala connosco (mesmo que seja só para perguntar a data) e o sorriso que nos inunda a cara durante o resto do dia… quem nunca? Desde aí, e apesar de ter estreado em julho, 3 de outubro parece o aniversário deste filme; e, como tal, todos os anos merece uma atenção especial que nos faz voltar atrás no tempo e lembrar dos olhos sorridentes da Cady.  

 Mean Girls (Giras e Terríveis) tem, na verdade, muito que ver com o Glitter – e não, não é (só) pelos outfits rosa ou pelos acessórios cheios de brilho. 

Caso não te lembres bem da história da Cady e da Regina, vamos antes a um mini resumo. Depois de 15 anos a viver em África, com dois entusiastas pais zoólogos, Cady enfrenta uma grande mudança: adeus, aulas em casa; olá, liceu! Depressa se dá conta de que as relações entre os animais das reservas naturais em que os pais trabalhavam não são assim tao diferentes das que testemunha naqueles corredores labirínticos do liceu de North Shore: a vida é uma autêntica selva! Porém, consegue fazer dois amigos logo no segundo dia: a Janis e o Damian – que lhe contam horrores sobre a grande e temida Regina George. (Se nunca viste o filme e queres evitar spoilers, para aqui e segue para o próximo parágrafo!) A partir daí, começa uma estratégia para destituir Regina do seu lugar de ditadora; afinal, se lhe tirassem tudo aquilo que ela valorizava para poder manter-se no topo da cadeia alimentar daquele liceu, ela cairia por terra. Mas Cady deixa-se levar… com táticas aprendidas com a própria Regina, tira-lhe as amigas, o pseudo-namorado, a atenção dos outros alunos e, à medida que se afirma na escola que a ignorava, passa a ser tão detestada como a antiga abelha-rainha – inclusive (e sobretudo) pelos seus primeiros amigos. Não que ela se aperceba logo que as coisas descarrilaram… mas, naquela noite de festa, vómito e desilusão, torna-se claro que ela já não estava a fingir ser uma das “Plásticas” – ela era Plástica. E, bem… a vingança serve-se fria, não é o que dizem? Por isso, quando Regina fica a saber do esquema, o “Burn Book” conhece a luz do dia e… as coisas ficam feias. Não só na escola, mas também em casa, quando Cady assume que vai chumbar a Matemática – porque, apesar da sua natural aptidão, julgava ter de parecer tonta para ter a atenção do novo explicador: a sua paixoneta Aaron. Felizmente, a história tem uma reviravolta e a Sra. Norbury dá os primeiros passos para converter o caos em paz: o ódio imponderado e reativo no “Girl World” é substituído por pedidos de desculpa sentidos, testes de confiança e uma vulnerabilidade que torna clara a importância de as mulheres se juntarem em vez de se atacarem. 

Cady descobre muita coisa sobre alegada etiqueta social ao chegar ao liceu, mas mais ainda ao sentar-se dia após dia com as “Plásticas” na mesa central do refeitório. Aparentemente, fica muito mal comprar uma saia sem a aprovação das amigas, é proibido estar com o ex de uma amiga (mesmo que até tinha sido ela a deixá-lo, após o ter traído) e as Olimpíadas de Matemática são sinónimo de suicídio social. Além disso, Cady percebe que “magra” e gorda” estão longe de ser termos suficientemente precisos para descrever o corpo feminino; a lupa das novas amigas para falhas é muito maior que a dela: “ombros de homem”, onde começa o contorno do couro cabeludo, “poros visíveis”… E, no meio desta dinâmica para ela tão estranha, dá por si a querer pertencer; seguramente sofreria mais se ficasse de fora…

Este filme tem 22 anos e, apesar do seu propósito inicial não se afastar do impacto que ainda tem, hoje, noutro contexto, podemos vê-lo sob uma luz muito mais satírica. Poderia falar sobre um enorme leque de temas que as personagens nos mostram, mas escolho aqueles que me fizeram começar com a afirmação inicial: as conexões femininas e a libertação de rótulos e etiquetas de que frequentemente, enquanto mulheres, somos alvo.

O trio Regina-Gretchen-Karen personifica a típica beleza privilegiada que não vem acompanhada de consciência social ou particular empatia. Enquanto as últimas duas são conhecidas por serem assumidamente tontas, a primeira até pode ser inteligente – mas são más as intenções que a impelem. E, não sendo nova, felizmente temos refutado claramente esta teoria de que ou se é bonita ou se é inteligente. Porque é que uma haveria de excluir a outra? Da nossa parte, já sabes que podes ler um artigo sobre opções de casacos para a nova estação, como outro sobre a manifestação das tuas emoções no teu corpo, ou sobre o Dia da Desigualdade Salarial, sobre Clubes de Leitura ou Clubes de Corrida. 

Não há nenhuma mulher que se interesse apenas por um tópico e, de cada vez que supomos ser o caso, é mais uma machadada no que podia ser uma convivência repleta de encorajamento e partilha. Até ia dizer “uma machadada na sororidade”, mas sei que há quem não veja essa palavra com bons olhos. E não deixa de ser curioso que isso aconteça; uma palavra que resume “a união, a empatia e o apoio mútuo entre mulheres” a enrugar narizes…

É então neste contexto de ataques – a torto e a direito, velados ou descarados – entre as alunas do liceu de North Shore que aquele momento em que fazem as pazes ganha tanta representatividade. Nós próprias, no conforto do nosso sofá (e não nas arquibancadas daquele pavilhão desportivo), também levantamos a mão quando a Sra. Norbury pergunta “quem é que já teve alguma mulher a fazer um comentário feio sobre si nas suas costas?”… e voltamos a levantá-la quando ela prossegue com “quem é que fez um comentário feio sobre uma mulher nas suas costas?”. E o que acontece a seguir transforma perspetivas tanto quanto repara feridas; afinal, conversar sobre o que não está bem continua a ser a chave para relações saudáveis – quem diria, não é?

Quer isto dizer que o mundo é um conto de fadas e que teremos de engolir sapos quando alguém nos fala mal? Não, de modo nenhum, e como a Cady diz: “se és mordida por uma cobra, tens de tirar todo o veneno” – nunca deixar que te corroa por dentro! Porque claramente adotar planos de vingança e responder na mesma moeda está visto que nos obriga a fazer mudanças demasiado sérias em aspetos demasiado preciosos do nosso eu. E aqui ninguém perde o seu brilho; pelo contrário: temos suficiente para todas!

#GlitterUpYourLife