O primeiro beijo, os primeiros passos de um bebé, o primeiro dente, o primeiro dia de escola, a primeira viagem sozinha, o primeiro emprego. Há momentos que poderiam ser apenas mais um acontecimento na vida, mas que ficam gravados com uma intensidade muito maior. O que têm afinal as primeiras vezes para ocuparem um lugar tão especial na nossa memória?
Os primeiros passos de um filho são filmados, o primeiro dente é fotografado, o primeiro beijo é lembrado com uma precisão surpreendente e o primeiro dia de escola pode ficar marcado tanto para a criança como para os pais. Mesmo quando o momento em si dura apenas alguns segundos, a memória ganha uma dimensão muito maior.
As primeiras vezes têm uma força emocional particular porque representam passagem, descoberta e mudança. Quando algo acontece pela primeira vez, ainda não existe rotina, comparação ou expectativa construída a partir da experiência anterior. Tudo é novo e, por isso, prestamos mais atenção.
O cérebro gosta de novidade
A novidade tem um peso enorme na forma como guardamos memórias. Quando vivemos uma experiência pela primeira vez, estamos mais atentos aos detalhes, ao ambiente, às pessoas e às emoções. Essa atenção acrescida ajuda a criar memórias mais fortes e mais fáceis de recuperar no futuro.
É por isso que muitas pessoas se lembram perfeitamente do primeiro beijo, mas teriam dificuldade em descrever o décimo. O mesmo acontece com uma primeira viagem, o primeiro dia num novo emprego ou a primeira vez que entramos numa casa onde acabaremos por viver durante anos. A repetição torna os acontecimentos familiares. A primeira vez ainda tem o poder de surpreender.
As primeiras vezes marcam mudanças
Também lhes damos valor porque muitas vezes representam um antes e um depois. Os primeiros passos de um bebé significam que começou uma nova fase de desenvolvimento. O primeiro dente anuncia outra etapa. O primeiro namoro, o primeiro emprego ou a primeira casa simbolizam independência, crescimento e transformação.
Mesmo acontecimentos muito simples podem ganhar um significado enorme quando representam uma mudança de identidade. A pessoa que entra num avião pela primeira vez não é exatamente a mesma que sai. A criança que entra na escola começa uma nova fase da vida. Quem se apaixona pela primeira vez passa a conhecer uma emoção que até então existia apenas através das histórias dos outros.
Há também uma parte de antecipação
Muitas primeiras vezes são esperadas durante semanas, meses ou até anos. Os pais aguardam os primeiros passos. Os adolescentes imaginam como será o primeiro beijo. Quem compra casa pensa durante muito tempo no momento em que vai receber as chaves. Quando finalmente acontece, o momento carrega toda essa expectativa acumulada.
E quanto maior foi a espera, maior tende a ser a importância emocional que lhe atribuímos.
E depois há as últimas vezes, das quais raramente nos apercebemos
Talvez seja precisamente por sabermos quando algo começa que damos tanta importância às primeiras vezes. As últimas vezes costumam passar despercebidas. Um dia pegamos no filho ao colo pela última vez e não sabemos que será a última. Brincamos com determinados amigos pela última vez na infância, saímos de uma casa sem imaginar que nunca mais iremos voltar ou fazemos uma viagem com alguém que acabará por seguir outro caminho. As primeiras vezes costumam anunciar se. As últimas, quase nunca. E isso torna os inícios ainda mais fáceis de celebrar.
E se estivermos a dar demasiada importância às primeiras vezes?
No meio de tanta vontade de guardar memórias, também acabámos por criar uma pressão desnecessária em torno das primeiras vezes. Esperamos que o primeiro beijo seja inesquecível, que a primeira viagem a dois seja perfeita e que os primeiros passos de um bebé aconteçam com toda a família presente e o telemóvel preparado para filmar.
A realidade raramente corresponde a estas expectativas. O primeiro beijo pode ser desajeitado, a primeira viagem pode correr pessimamente e os primeiros passos podem acontecer num momento perfeitamente banal, enquanto alguém está ocupado a preparar o jantar.
Há também experiências que se tornam muito mais especiais com o tempo. A primeira viagem a uma cidade pode ser interessante, mas a segunda, quando regressamos com alguém especial, pode ganhar um significado completamente diferente. Até no crescimento dos filhos, a obsessão por registar cada conquista pode acabar por nos distrair da experiência de acompanhar todas as pequenas mudanças que acontecem entre esses grandes momentos.
A importância que atribuímos às primeiras vezes é muitas vezes construída posteriormente, através das histórias que contamos e do significado que decidimos dar-lhes. E algumas experiências simplesmente não merecem ocupar um lugar tão especial na nossa memória.
Nem tudo precisa de ser memorável à primeira. Há coisas que só se tornam verdadeiramente especiais quando as repetimos, quando aprendemos a apreciá-las ou quando encontramos a pessoa certa com quem as viver.