Durante anos, as mãos de um fumador tiveram o emprego mais estável do mundo como funcionárias do mês da indústria tabaqueira. O trabalho resumia-se a tarefas essenciais como levar o cigarro à boca logo a seguir ao café, segurá-lo durante chamadas telefónicas intermináveis, dar lume ao rodar a chave do carro ou gesticular com ele na esplanada. Não precisavam de formação nem de supervisão, operavam em piloto automático sem que o cérebro lhes passasse uma única diretriz.
De repente, o fumador decide deixar de fumar e manda-as direitinhas para uma reforma antecipada. Ficam ali, penduradas ao lado do corpo, a tremer de tédio e a perguntar-se se está na hora de começar a aprender tricô?
E as mãos não são as únicas a ficar confusas. De repente, o café parece incompleto, a pausa no trabalho parece longa, o carro ganha um eco estranho e a barriga cheia deixa um vazio existencial. É nessa altura que o cérebro, com a subtileza de uma banda de death metal norueguês, começa a sussurrar, “não nos estamos a esquecer de nada?”.
Estamos, pois. Do cigarro. Mas isso não significa necessariamente que precisemos dele. O cigarro é aquele amigo que se instala lá em casa.
A nicotina provoca dependência. Isso não está em discussão. Mas fumar não é apenas repor os níveis de nicotina. Ao longo dos anos, o cigarro vai-se associando a comportamentos, rotinas, emoções e momentos específicos do dia. É precisamente por isso que deixar de fumar implica mexer também em associações comportamentais repetidas milhares de vezes.
No início, convida-se o cigarro para uma festa, depois aparece para o café e de seguida para o jantar. Depois começou a fazer-se acompanhar no carro. Quando se dá por ela, já tinha uma gaveta na cómoda. É assim que se constroem muitos hábitos. Repete-se uma coisa tantas vezes que o cérebro deixa praticamente de perguntar se queremos fazê-la. E, a determinada altura, já nem pensamos “Agora vou fumar.” De repente, já se está com o cigarro na mão. É aquilo a que podemos chamar piloto automático do fumador e é muito eficiente.
Aqui começa uma das partes mais interessantes. Nem toda a vontade de fumar é necessariamente uma necessidade física de nicotina. Às vezes, o corpo nem sequer está a pedir aquilo que pensamos.
É o cérebro que encontrou uma situação conhecida e foi buscar a resposta que aprendeu durante anos. É precisamente esta distinção que procuramos explicar aos nossos utentes: determinados gatilhos podem fazer reaparecer a resposta antiga sem que isso corresponda necessariamente a craving físico.
Ou seja, o cigarro não ocupava apenas os pulmões. Ocupava tempo. Ocupava as mãos. Ocupava a boca. Criava pausas. Marcava momentos.
Mas calma, para ocupar as mãos, a boca, e momentos não é preciso começar imediatamente a fazer crochet.
A ideia é muito mais simples, substituir pequenas respostas automáticas por outras respostas simples e executáveis.
- Tens vontade de levar alguma coisa à boca? Água ou uma pastilha sem açúcar podem ajudar.
- Precisas de mexer nas mãos? Uma caneta, uma bola anti-stress, qualquer pequeno objeto.
- O cigarro marcava a pausa? Continua a fazer a pausa. Vai lá fora. Caminha cinco minutos. Respira. Liga a uma amiga.
Só não fumes!
O objetivo não é construir uma vida em redor da fuga ao cigarro. É precisamente o contrário, isto é, construir uma vida em que o cigarro deixe de ser necessário.
Queremos passar de CAFÉ → CIGARRO para CAFÉ → OUTRA COISA, até conseguirmos finalmente chegar ao extraordinariamente simples CAFÉ → CAFÉ.
Costumo explicar isto, nas minhas consultas, através de uma imagem muito simples. Imagina o cérebro como uma floresta. Quando repetimos um comportamento pela primeira vez, abrimos um pequeno trilho. Quanto mais passamos por ali, mais fácil fica. Depois de milhares de repetições, aquilo que era um pequeno caminho transforma-se numa autoestrada. É isso que acontece com muitos comportamentos associados ao cigarro. Durante anos construímos autoestradas com o mesmo destino.
Stress → cigarro.
Café → cigarro.
Discussão → cigarro.
Álcool → cigarro.
Depois da refeição → cigarro.
Quando deixamos de fumar, não aparece magicamente uma equipa de obras durante a noite para destruir essas autoestradas. Infelizmente, o cérebro ainda não dispõe de retroescavadora.
Temos de começar a construir novos caminhos. E fazemos isso sempre que encontramos o mesmo gatilho e respondemos de maneira diferente. No início, o novo caminho é estranho, repleto de vegetação densa. Depois fica familiar, uma autoestrada. Com repetição, começa a tornar-se automático. O princípio que usamos é precisamente esse, não tentar “apagar” o hábito antigo de um momento para o outro, mas criar respostas novas, simples e suficientemente fáceis de repetir.
Outra condicionante associada ao cigarro é o stress. Deixar de fumar não faz desaparecer o chefe, as contas, o trânsito, os filhos, os problemas amorosos nem aquela pessoa que manda um áudio de WhatsApp com 8 minutos e 53 segundos. O stress continua lá.
E é precisamente por isso que retirar o cigarro sem perceber qual era a função que ele desempenhava pode tornar tudo mais difícil. Se durante vinte anos a resposta ao stress foi acender um cigarro, é necessário construir uma resposta diferente.
O fumador não precisa de decidir hoje se vai conseguir passar os próximos 40 anos sem fumar. Só precisa de ultrapassar aquele momento, parar uns segundos e encontrar o gatilho e começar a mudar a resposta. Não precisa de ser extraordinária, precisa apenas de quebrar a sequência automática.
Porque cada café sem cigarro, cada viagem de carro sem cigarro, cada refeição sem cigarro e cada situação de stress ultrapassada sem cigarro está a ensinar ao cérebro uma coisa nova tão simples como “Também conseguimos fazer isto sem fumar.” E repetimos até deixar de pensar no cigarro.
E aquele antigo amigo que aparecia em todo o lado? Finalmente percebeu que já não mora cá. Porque o verdadeiro objetivo não é passar o resto da vida a resistir a fumar. É chegar ao ponto em que já não precisamos de resistir.
Até aqui falámos muito de hábitos, gatilhos e daquele cérebro que continua à procura do cigarro onde sempre o encontrou. Mas seria injusto colocar todas as culpas no piloto automático. A nicotina provoca dependência física, e quando deixa de chegar ao organismo podem surgir irritabilidade, ansiedade, inquietação e vontade de fumar.
É aqui que entra a auriculoterapia por eletroestimulação. Através da estimulação de pontos específicos do pavilhão auricular, procuramos tornar esta fase inicial de abstinência mais confortável, ajudando a reduzir sintomas como ansiedade, irritabilidade, compulsão e a intensidade da vontade de fumar.

Porque uma coisa é pedir ao cérebro para construir uma nova estrada. Outra é pedir-lhe para fazer as obras com ansiedade, irritabilidade e uma vontade enorme de mandar o empreiteiro para um sítio que não podemos escrever neste artigo.
A auriculoterapia não constrói a estrada por si, nem faz desaparecer vinte anos de hábitos com um toque de magia. Ajuda, sim, a tornar a construção das novas autoestradas mais suportáveis. Enquanto trabalhamos os gatilhos e ensinamos ao cérebro novas respostas, procuramos que o corpo esteja menos reativo à ausência da nicotina. É precisamente esta combinação, componente física e componente comportamental, que está na base da nossa abordagem.
No fundo, queremos que o corpo deixe de reclamar pelo cigarro e que o cérebro deixe de se lembrar de o procurar. Até chegar aquele momento maravilhoso em que se bebe um café, entra-se no carro, discute-se com o chefe e o cigarro nem sequer é convidado para a conversa.
Aí, sim, o antigo amigo percebeu definitivamente que não só já não mora cá, como também mudámos a fechadura.
E as mãos? Não se preocupe com elas. Mais cedo ou mais tarde arranjam outra ocupação. Se tudo correr bem, deixamos de fumar. Se correr extraordinariamente bem, ainda chegamos ao inverno sem cigarros e com uma bela camisola tricotada por aquelas mãos que, afinal, só precisavam de deixar de trabalhar para a tabaqueira.
Artigo por Cristiana Machado
Terapeuta de Auriculoterapia & Especialista em Cessação Tabágica
Fundadora Viver Sem Fumo www.viversemfumo.com
https://www.instagram.com/viver.sem.fumo/