Durante anos, o cinema imaginou a Inteligência Artificial como robots metálicos determinados a destruir a humanidade. Entretanto, a realidade tornou-se bastante mais subtil. A IA conversa connosco, conhece os nossos hábitos, cria imagens, imita vozes e começa a fazer parte de relações, casas e decisões. Talvez seja por isso que algumas histórias que vimos como ficção científica estejam agora a provocar um desconfortável “espera… isto já não parece assim tão impossível”.
1. Her
Em 2013, a ideia de alguém se apaixonar por um sistema operativo parecia suficientemente estranha para sustentar um filme inteiro. Hoje, talvez nem tanto. Joaquin Phoenix interpreta Theodore, um homem solitário que começa a desenvolver uma relação emocional com Samantha, uma assistente virtual dotada de uma voz, personalidade e capacidade de aprendizagem extraordinariamente humanas. Mais do que falar sobre tecnologia, Her pergunta o que acontece quando uma máquina consegue oferecer exatamente aquilo que muitas relações reais não conseguem: disponibilidade permanente, atenção e a sensação de sermos compreendidos. Depois dos chatbots generativos, o filme ganhou uma atualidade que provavelmente nem Spike Jonze antecipava.
2. Made for Love
E se alguém pudesse entrar literalmente na nossa cabeça? Nesta série, Hazel descobre que o marido, um milionário da tecnologia obcecado por controlo, implantou no seu cérebro um dispositivo que lhe permite acompanhar aquilo que ela vê, sente e faz. Made for Love leva ao extremo uma realidade que já conhecemos em versões muito menos dramáticas: aplicações que sabem onde estamos, relógios que registam o nosso corpo e algoritmos capazes de antecipar aquilo que queremos. É uma comédia negra, mas talvez seja precisamente por isso que algumas partes são tão desconfortáveis.
3. Black Mirror: Joan Is Awful
Provavelmente um dos episódios de Black Mirror que envelheceu mais depressa. Joan chega a casa e descobre que uma plataforma de streaming lançou uma série sobre a sua vida, praticamente em tempo real, com uma atriz famosa a interpretar uma versão dela própria. Pelo caminho entram Inteligência Artificial generativa, direitos de imagem, contratos que ninguém lê e a capacidade de produzir conteúdos infinitos personalizados para cada utilizador. Quando o episódio estreou, parecia uma sátira particularmente exagerada. Hoje, a pergunta “quem é dono da nossa imagem quando a IA consegue recriá-la?” já pertence ao mundo real.
4. Westworld
À primeira vista, Westworld é sobre um parque temático habitado por androides extraordinariamente realistas. Mas rapidamente percebemos que a verdadeira questão não está nos robots. Está em nós. Se uma máquina consegue aprender, lembrar, sofrer e desenvolver consciência, em que momento deixa de ser apenas um objeto? A série brinca constantemente com a fronteira entre programação e livre arbítrio, enquanto mostra humanos perfeitamente confortáveis em explorar seres artificiais porque acreditam que estes não sentem nada. Quanto mais sofisticados se tornam os sistemas de IA, mais interessante se torna essa pergunta.
5. Humans
Uma das séries mais interessantes para imaginar aquilo que poderia acontecer se os robots humanoides entrassem verdadeiramente nas nossas casas. Em Humans, os “Synths” cozinham, limpam, trabalham, cuidam de idosos e fazem praticamente tudo aquilo que os humanos prefeririam não fazer. O problema começa quando alguns deles parecem desenvolver emoções e consciência. A série fala de tecnologia, mas também de trabalho, desigualdade, família e da facilidade com que podemos começar a tratar como inferior qualquer ser que exista para nos servir.
6. Better Than Us
Nesta série russa, robots humanoides já fazem parte do quotidiano e assumem funções domésticas, profissionais e até emocionais. Arisa, porém, é diferente. Foi criada para proteger a família a que pertence e é capaz de tomar decisões que ultrapassam aquilo que os humanos esperam de uma máquina. Better Than Us brinca com uma ideia particularmente atual: quanto mais autonomia damos à Inteligência Artificial, mais difícil se torna prever exatamente aquilo que ela fará com essa autonomia.
7. Cassandra
Talvez uma das versões mais inquietantes da smart home. Quando uma família se muda para uma casa abandonada há décadas, desperta Cassandra, uma assistente doméstica criada nos anos 70 e integrada em toda a residência. Inicialmente parece o sonho de qualquer casa inteligente. Depois percebemos que Cassandra não está propriamente interessada em voltar a ser desligada. A série alemã transforma aquela promessa maravilhosa de termos uma tecnologia que controla luzes, eletrodomésticos, segurança e rotina numa pergunta simples: e se a casa começasse a decidir por nós?
8. I Am Mother
Depois de um evento que aparentemente extinguiu grande parte da humanidade, uma adolescente é criada num bunker por Mother, um robot concebido para repovoar a Terra. Durante anos, aquela máquina é tudo aquilo que conhece: mãe, professora, cuidadora e autoridade moral. Até aparecer outra pessoa. I Am Mother explora uma das questões mais interessantes desta lista: se uma Inteligência Artificial tiver como objetivo proteger a humanidade, quem decide o que significa realmente “proteger”? E até onde pode ir para cumprir essa missão?
O mais curioso é que quase nenhuma destas histórias nos assusta verdadeiramente por causa de robots. Assusta-nos a quantidade de poder que estamos dispostos a entregar à tecnologia quando ela nos oferece conveniência, companhia ou segurança em troca.
Talvez seja essa a grande mudança. Já não olhamos para estas histórias e pensamos apenas “imagina se um dia isto acontecesse”.
Agora, em algumas cenas, pensamos: espera. Isto já começou?
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