Porque é que queremos ter a vida resolvida aos 21? 

Até há muito pouco tempo, eu achava, um tanto inconscientemente, que a minha vida aos 20 e poucos anos tinha de ter um nível de organização e clareza equivalente à gaveta de meias da Marie Kondo. Só que depois percebi duas coisas. Primeiro, é impossível. Segundo, qual seria a piada? 

Enquanto sociedade, vivemos insistentemente a ideia de que temos de saber exatamente o que queremos fazer, com quem queremos estar e para onde estamos a ir quando, na maioria das vezes, com 20 anos, nem sabemos muito bem quem somos. E, na verdade, esta é a idade perfeita para nos permitirmos descobrir tudo isso. 

Quando somos crianças, olhamos para a vida adulta como um chocolate quente num dia frio de inverno e desejamo-lo intensa e rapidamente. Depois crescemos e percebemos que a pressa é uma treta, mas hey: a boa notícia é que nunca é tarde para deixar de procurar obsessivamente o futuro quando ainda nem sabemos a que sabe o presente. Aos 20 anos, não temos de ter curso, estágio, emprego, carreira, relação estável, viagens, dinheiro, casa, hobbies, vida social e, de preferência, um plano B. Aos 20 anos, pelo contrário, nós só temos de experimentar. 

Não é como se alguém nos estivesse sempre a dizer que estamos atrasados, o nosso cérebro é que tende a tropeçar no piso escorregadio, apesar do aviso amarelo, e cair no perigoso vale das comparações. Parece, constantemente, que há pessoas mais adiantadas que nós, nos naturais percursos diferentes que transformamos numa corrida. No Linkedin, alguém da nossa idade arranjou um emprego incrível, no Instagram alguém comprou casa, no TikTok alguém já sabe exatamente qual é o seu propósito e, mesmo na vida real, quando olhamos à nossa volta o amigo X foi viver para fora, o Y está a tirar mestrado e o Z já começou a trabalhar. E é neste ponto que, sentados na janela a olhar para a relva tão verde do vizinho do lado, nos esquecemos de algo tão simples: a vida não é uma maratona com uma meta para passar. De facto, estás exatamente onde devias estar. 

Se a casa dos 20s não te parece a morada ideal para recomeçar, fazer asneiras q.b, aprender coisas novas, conhecer pessoas, dizer mais vezes “sim”, plantar sonhos, correr atrás deles, falhar, tentar de novo e ser imensamente feliz no processo, qual parecerá?

São anos confusos, temos dúvidas, claro, mas isso não significa que estejamos perdidos. Na realidade, nem consigo perceber o que há de emocionante em achar que se sabe tudo. Spoiler: não se sabe. Pensemos nesta fase das nossas vidas como uma grande auto-investigação cujo único objetivo é recolhermos informações sobre nós próprios. Um dia de cada vez, sem receio de ficar para trás de alguma forma porque, mais uma vez: isto não é o grande prémio da F1. 

Escolher um emprego não significa escolher uma carreira para sempre. Terminar uma relação não significa ter escolhido mal. Mudar de opinião não significa não ter personalidade. Não saber o que queremos não significa não termos ambição.

Há uma certa liberdade em perceber que nem todas as decisões precisam de ser definitivas para serem importantes. E eu acho que esta é a parte mais glitter. 

#glitterupyourlife