Os sabores que anunciam o outono

Há uma altura do ano em que começamos a trocar o gelo pelas canecas quentes, as saladas por pratos de forno e a fruta de verão por sabores mais doces, terrosos e reconfortantes. O outono ainda pode demorar a chegar ao termómetro, mas na cozinha costuma aparecer mais cedo. E há ingredientes que o anunciam sem precisar de calendário.

As castanhas são provavelmente o sinal mais óbvio. Basta começarem a aparecer assadas nas ruas para percebermos que a estação mudou. Entram em sopas, purés, acompanhamentos ou sobremesas, mas talvez continuem a saber melhor simplesmente quentes, dentro de um cartucho de papel, num fim de tarde já fresco.

A abóbora é outro clássico incontornável. Assada, em creme, risotto, massas ou tartes, é um daqueles ingredientes que parece ter sido inventado para esta época. E depois há a versão mais internacional do fenómeno, com pumpkin spice em cafés, bolos e praticamente tudo o que possa levar canela, noz moscada e cravinho. Podemos fingir que resistimos, mas todos sabemos como isto acaba.

As maçãs e peras também regressam ao centro da mesa. No verão queremos fruta fria e quase sem preparação. No outono começamos a pensar em maçãs no forno, crumble, tarte, peras escalfadas em vinho e sobremesas que deixam a cozinha a cheirar durante horas. O marmelo entra nesta mesma categoria, sobretudo quando chega sob a forma de marmelada e nos lembra imediatamente pão, queijo e pequenos-almoços demorados.

Depois vêm os sabores mais terrosos. Cogumelos, trufas, batata doce, raízes e frutos secos começam a aparecer com mais frequência nos pratos, muitas vezes acompanhados de molhos mais ricos e preparações lentas. É a altura em que um risotto de cogumelos começa a parecer uma excelente ideia e em que ninguém questiona a quantidade de manteiga necessária.

Os figos ainda fazem a ponte entre o fim do verão e o início do outono, sobretudo quando aparecem acompanhados de queijo, mel ou frutos secos. As nozes, avelãs e amêndoas ganham protagonismo e começam discretamente a levar tudo para território natalício, mesmo quando ainda estamos longe de dezembro.

Também as especiarias mudam de personalidade nesta altura. Canela, cardamomo, gengibre, cravinho e noz moscada deixam de ser apenas ingredientes e passam quase a fazer parte da decoração emocional da casa. Um bolo no forno, um chá quente ou um café com canela conseguem fazer mais pela sensação de outono do que muitos casacos.

E há ainda os pratos que não pertencem propriamente a uma estação, mas que começam a apetecer de outra forma quando os dias encurtam. Sopas, estufados, arroz de forno, massas mais cremosas e tudo aquilo que chega à mesa ainda a fumegar volta a parecer irresistível.

Talvez seja isso que torna o outono tão fácil de reconhecer. Antes de mudarmos completamente o guarda roupa, já mudámos o que nos apetece comer. Porque algumas estações chegam primeiro à mesa.

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