Gratidão: este músculo não precisa de ginásio (mas precisa de treino)

Se eu te disser para praticares gratidão todos os dias, há uma boa probabilidade de revirares os olhos. Eu percebo. A palavra “gratidão” foi tão usada nos últimos anos que, às vezes, parece ter perdido significado. Entre canecas motivacionais, frases de Instagram e agendas coloridas, quase parece que basta escrever três coisas boas por dia para a vida ficar automaticamente maravilhosa.

Spoiler: não funciona assim.

A gratidão não serve para fingirmos que está tudo bem, nem para ignorarmos problemas.

Muito menos para nos sentirmos culpados por estarmos tristes.

A Psicologia fala de outra coisa. Fala da capacidade do cérebro aprender a reparar também naquilo que funciona, e isto é particularmente importante porque o nosso cérebro tem um – conhecido – viés de negatividade. Por razões evolutivas, está programado para detetar ameaças muito mais rapidamente do que momentos agradáveis. Era útil quando precisávamos de fugir de predadores. Hoje faz com que nos lembremos mais facilmente daquele comentário desagradável do que dos dez elogios que recebemos. A boa notícia? Temos uma coisa incrível que se chama de plasticidade neuronal. O cérebro pode mudar. E, tal como um músculo, pode ser treinado.

Aqui ficam cinco formas simples de fortaleceres o teu “músculo da gratidão”.

1. Troca o piloto automático pela curiosidade

Em vez de perguntares “como correu o dia?”, experimenta perguntar: “qual foi o melhor momento de hoje?”

O cérebro começa, naturalmente, a procurar respostas diferentes.

2. Agradece pessoas, não apenas acontecimentos

Dizer “obrigado” continua a ser uma das intervenções mais simples e mais poderosas que existem.

E faz bem a quem recebe, mas também a quem agradece.

3. Faz uma pausa antes da próxima meta

És daquelas pessoas que mal atingem um objetivo já estão a pensar no seguinte?

Então este ponto é para ti. Celebra. Nem que sejam cinco minutos. O cérebro também precisa de reconhecer e integrar conquistas.

4. Aprende a reparar no pequeno (que pode ser enorme)

O café ainda quente. A gargalhada inesperada. A música certa no momento certo. O abraço demorado. A gratidão vive muito mais nas pequenas rotinas do que nos grandes acontecimentos.

5. Não uses a gratidão para esconder emoções desconfortáveis

Podes sentir-te grato e, ao mesmo tempo, cansado. Grato e ansioso. Grato e triste. As emoções não competem entre si. Convivem, e isso é saudável.

No Dia Mundial da Gratidão, o convite não passa por fingir que a vida é perfeita, mas sim para treinar o olhar. Importa lembrar que aquilo em que prestamos atenção cresce. E a gratidão, ao contrário do que muitos pensam, não muda aquilo que nos acontece. Muda, muitas vezes, a forma como atravessamos aquilo que nos acontece.

E esse pode ser um dos superpoderes mais subestimados da saúde mental!

Artigo por Helena Paixão
Psicóloga Clínica, Autora, Speaker; CEO & Founder da Clínica Helena Paixão – Psicologia, Mindfulness e Desenvolvimento Pessoal
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