A pressão social para beber alcóol existe e obriga-nos a justificar quando não o fazemos.

Há uma situação que se repete com uma frequência surpreendente. Alguém está num jantar, numa festa ou num bar, chega o momento de pedir bebidas e escolhe água, uma cerveja sem álcool ou simplesmente diz que não quer beber. “Não vais mesmo beber nada? Estás de dieta? Estás a tomar algum medicamento?”. E, para muitas mulheres, existe ainda aquela pergunta que consegue surgir com uma rapidez impressionante: “Estás grávida?”

A decisão de não beber continua a ser tratada, em muitos contextos, como algo que exige uma explicação. Quem pede vinho não precisa de justificar porque quer beber. Quem pede água acaba frequentemente a explicar porque não quer.

Grande parte desta pressão nasce da forma como o consumo de álcool foi integrado nas nossas rotinas sociais. Bebemos para celebrar aniversários, casamentos e promoções. Bebemos quando encontramos amigos, quando vamos jantar fora e quando chega o fim de semana. Um copo de vinho acompanha o jantar, o champanhe acompanha a comemoração e os cocktails acompanham uma noite fora.

Com o tempo, criou-se uma associação muito forte entre álcool, diversão e convívio. Por isso, quando alguém decide ficar de fora, essa escolha pode parecer estranha dentro de um grupo em que beber é entendido como parte natural da experiência. A pressão também nem sempre aparece de forma agressiva. Muitas vezes surge disfarçada de brincadeira, insistência carinhosa ou surpresa genuína. Frases aparentemente inofensivas como “um copo não faz mal” que acabam por transmitir a mesma mensagem: para participar plenamente naquele momento, espera-se que bebas.

Porque incomoda tanto quando alguém diz que não?

A escolha de outra pessoa pode obrigar-nos, mesmo que por poucos segundos, a olhar para os nossos próprios hábitos. Quando todo o grupo está a beber, existe uma espécie de validação coletiva. Todos estão a fazer o mesmo, por isso ninguém pensa particularmente sobre o assunto. Quando uma pessoa decide não acompanhar, essa diferença torna-se imediatamente visível.

É também por isso que quem não bebe acaba tantas vezes transformado no centro da conversa. Há quem interprete a recusa como julgamento, mesmo quando não existe qualquer crítica. Há quem receie que a pessoa não se divirta da mesma forma ou que fique demasiado consciente do comportamento dos outros. Há ainda quem esteja simplesmente habituado a uma cultura social onde oferecer uma bebida significa incluir alguém e insistir parece uma forma de hospitalidade.

O resultado acaba por ser o mesmo. Uma decisão individual torna-se uma questão coletiva.

A geração que começa a mudar a relação com o álcool

Nos últimos anos, a relação com o consumo de álcool começou a mudar, sobretudo entre os mais jovens. Conceitos como sober curious, que descreve pessoas interessadas em reduzir ou questionar o consumo sem necessariamente se identificarem como abstémias, começaram a ganhar espaço. Ao mesmo tempo, cresceram as opções sem álcool, desde vinhos e cervejas a cocktails preparados com o mesmo cuidado e apresentação das versões tradicionais.

Também se tornou mais comum encontrar pessoas que simplesmente decidem beber menos porque querem dormir melhor, treinar no dia seguinte, proteger a saúde mental, poupar dinheiro ou acordar sem ressaca. Outras não gostam do sabor ou da sensação provocada pelo álcool. E algumas não têm qualquer razão especial. Essa última possibilidade continua a ser importante porque uma pessoa não deveria precisar de apresentar uma justificação convincente para recusar uma bebida.

“Mas só um não faz mal”. A insistência é provavelmente a parte mais difícil da pressão social. Uma pessoa recusa a primeira bebida e alguém volta a oferecer. Recusa novamente e surgem perguntas. Pouco depois, a decisão transforma-se quase numa negociação.

Isto acontece porque muitas pessoas ainda encaram o álcool de forma diferente de outras escolhas pessoais. Dificilmente insistiríamos várias vezes para que alguém comesse um alimento depois de ouvir um “não quero”. Com uma bebida alcoólica, contudo, a fronteira parece ficar mais flexível.

Também existe uma diferença importante entre oferecer e pressionar. Perguntar “queres vinho?” faz parte da convivência normal. Continuar a insistir depois de ouvir uma resposta negativa deixa de ser um gesto de hospitalidade e passa a ignorar uma escolha que já foi claramente comunicada.

A pressão pode ser ainda maior entre mulheres

Para muitas mulheres, a decisão de não beber vem acompanhada de um conjunto adicional de suposições. A possibilidade de uma gravidez é frequentemente a primeira explicação sugerida, mesmo em contextos públicos ou entre pessoas com pouca intimidade. Uma mulher pode estar simplesmente a conduzir, a tomar medicação, a tentar engravidar, a ter dificuldades relacionadas com fertilidade ou a não querer beber naquela noite.

Nenhuma dessas circunstâncias deveria ter de ser revelada para encerrar uma conversa. Perguntar repetidamente a alguém porque não está a beber pode acabar por tocar em questões pessoais que desconhecemos completamente.

É possível sair à noite sem beber e continuar a divertir-se

Existe ainda uma ideia persistente de que uma pessoa só consegue realmente descontrair ou divertir-se numa noite fora depois de beber alguma coisa. Na prática, a experiência depende muito mais das pessoas, do ambiente e da vontade de estar ali.

Quem deixa de beber durante algum tempo percebe rapidamente outra coisa: continua a rir, dançar, conversar e ficar até tarde. Apenas regressa a casa com maior probabilidade de se lembrar de tudo no dia seguinte.

A normalização das alternativas sem álcool também está a ajudar a retirar algum peso social dessa escolha. Ter um copo na mão continua, curiosamente, a evitar muitas perguntas, mesmo quando ninguém sabe exatamente o que está dentro dele.

Não beber também não precisa de se transformar numa identidade

A redução do consumo trouxe consigo movimentos e tendências interessantes, mas também existe o risco de transformar uma decisão simples numa nova etiqueta. Uma pessoa pode beber num casamento e escolher não beber durante os três meses seguintes. Pode gostar de vinho e decidir que não lhe apetece naquela noite. Pode sair todas as semanas e nunca beber álcool. As escolhas podem mudar sem precisarem de obedecer a uma regra permanente.

Uma relação saudável com a vida social também passa por permitir que cada pessoa decida aquilo que quer consumir sem sentir que essa decisão determina se pertence ou não ao grupo.

Um “não, obrigada” devia ser suficiente. Podemos continuar a brindar, a celebrar e a apreciar uma boa garrafa de vinho sem assumir que toda a gente à mesa tem de fazer o mesmo. Da mesma forma, quem decide não beber não precisa de explicar a sua história clínica, os seus planos para a manhã seguinte ou a relação pessoal que tem com o álcool.

Há uma mudança cultural a acontecer, ainda que lentamente, e ela começa precisamente quando deixamos de transformar a bebida de outra pessoa num assunto nosso. Na próxima vez que alguém disser que não quer beber, existe uma resposta particularmente simples. “Claro.” E a conversa pode continuar.

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