5 recomendações culturais para ofereceres a uma tradwife

Pão de fermentação lenta, aventais impecáveis, crianças penteadas e uma casa onde aparentemente ninguém deixa meias no chão. O universo tradwife vende uma versão muito fotogénica da domesticidade tradicional. Por isso, em vez de discutir diretamente com o algoritmo, fizemos uma pequena seleção cultural: um livro, uma série, um filme, uma música e uma artista para acrescentar contexto à tendência.

Livro: Yesteryear, de Caro Claire Burke

Provavelmente a recomendação mais óbvia e, justamente por isso, incontornável. Yesteryear acompanha Natalie Heller Mills, uma influencer tradwife que construiu uma vida perfeita online, entre rancho, marido cowboy, seis filhos e conteúdos sobre vida tradicional. Até ao dia em que acorda no mesmo rancho em 1855.

A sátira de Caro Claire Burke pega precisamente na pergunta que fica muitas vezes por responder quando romantizamos o passado: e se tivéssemos realmente de viver nele, com todas as suas regras e limitações? O livro chegou a Portugal em 2026 e já tem adaptação cinematográfica prevista, com Anne Hathaway ligada ao projeto.

Série: The Handmaid’s Tale

Não estamos a dizer que fazer pão de massa mãe conduz inevitavelmente a Gilead. Mas a adaptação do romance de Margaret Atwood continua a ser uma das ficções mais poderosas sobre aquilo que acontece quando o controlo sobre a vida, o corpo e as escolhas das mulheres deixa de lhes pertencer.

Na sociedade totalitária de Gilead, as mulheres são divididas por funções e as Handmaids são obrigadas à reprodução. A série terminou ao fim de seis temporadas, mas continua bastante eficaz como lembrete de que os chamados papéis tradicionais deixam de parecer tão românticos quando deixam de ser escolhidos.

Filme: The Stepford Wives

Antes das tradwives terem ring lights, já existiam as mulheres de Stepford. No filme de 1975, baseado no romance de Ira Levin, uma mulher muda se com a família para uma comunidade onde as esposas parecem estranhamente perfeitas: bonitas, dedicadas à casa, permanentemente disponíveis para os maridos e absolutamente desinteressadas de qualquer vida própria.

Só existe um pequeno problema. Ou, neste caso, um problema bastante grande. É sátira, thriller psicológico e uma crítica à fantasia da mulher doméstica perfeita muito antes de o Instagram existir.

Música: “Pagu”, de Rita Lee

Se há uma canção para colocar a tocar enquanto fazemos compota caseira, talvez seja esta. Rita Lee lançou “Pagu” no álbum 3001, em 2000, recuperando a figura de Patrícia Galvão, escritora, jornalista, ativista e mulher pouco interessada em cumprir aquilo que se esperava dela.

A canção tornou se uma das expressões mais reconhecíveis do lado feminista e irreverente de Rita Lee. Não precisamos sequer de abandonar o avental. Só de aumentar o volume.

Artista: Clara Não (@clara.nao)

Ilustradora, designer e assumidamente feminista a tempo inteiro, clara.não construiu uma linguagem visual baseada precisamente em desmontar tabus, expectativas sociais e aquelas pequenas coisas absurdas que as mulheres ainda ouvem todos os dias.

O trabalho combina frases, desenho, ironia e bastante humor. Provavelmente a combinação ideal para entrar num feed demasiado perfeito e acrescentar lhe um bocadinho de realidade.

E, porque cinco recomendações não chegam quando falamos deste tema, deixamos Maria Teresa Horta como leitura obrigatória extra. Em 1972, juntamente com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, publicou Novas Cartas Portuguesas, obra que confrontou diretamente a ordem patriarcal, a condição das mulheres, a sexualidade e a falta de liberdade no Portugal do Estado Novo.

O livro foi proibido pela censura e as três autoras foram levadas a tribunal. Mais de cinquenta anos depois, continua a ser uma boa maneira de perceber que muitas das liberdades que hoje parecem banais foram, em tempos bastante recentes, coisas pelas quais mulheres tiveram literalmente de lutar. Todas estas histórias e tantas outras são contadas na sua biografia A Desobediente, escrita pela autora Patrícia Reis.

Nada disto significa que ficar em casa, cozinhar, cuidar dos filhos ou gostar de uma vida mais tradicional seja um problema. A palavra importante é escolha. Se uma mulher escolhe essa vida, ótimo. Se lhe dizem que é a única vida que devia querer, talvez esteja na altura de começar pela lista acima.

#GlitterUpYourLife