A moda é cíclica.
Sabemo-lo pelas calças de cintura subida que dominavam nos anos 80, deram lugar às de cintura descida nos 2000, regressaram em 2015 e atualmente voltam a perder fãs para a cintura descida a que nos habituaram a Britney Spears e a Beyonce. Ou as maxi skirts de ganga dos anos 90 que, após perderem protagonismo para as minissaias, voltaram em bom recentemente. Ou ainda as botas de cano alto que fizeram furor na década de 60, voltaram na de 90 e hoje em dia continuam a aparecer ciclicamente, com pequenas alterações aqui e ali.
Por isso, não é de espantar que, a dado momento da nossa vida, olhemos para aquele top que a nossa mãe costumava usar com olhos um bocadinho mais curiosos. Deixa de estar fora de moda e, de repente, até achamos que nos poderia ficar mesmo bem com o par de calças que comprámos há dias. E em, dois tempos, já saímos de casa para ir comprar pão com uma camisola de 20 anos.
Isto ganha outras cores quando começamos a olhar para estas peças como parte das histórias que a nossa família tem para contar – e que assim nos permitem trazer para o nosso dia a dia um pedacinho de quem nos é mais especial.
Vamos imaginar que a tua mãe tem uma amiga que vive do outro lado do oceano. Numa das ocasiões em que veio à Europa, há já uns 10 anos, deu-lhe um top verde de uma lojinha brasileira amorosa. A tua mãe adorou-o, estimou-o, usou-o tanto quanto pôde, mas os anos passam e a vida acontece, portanto, o top já não lhe serve. Porém, há um ponto importante: serve-te a ti – que, por sinal, tens agora a idade que a tua mãe e a amiga tinham quando se conheceram. E, porque adoras aquela cor, o corte e o tecido leve, decides usá-lo para ir sair com as tuas amigas. “Esse top é tão giro!”, sorriem elas; “obrigada! Também adoro! É da minha mãe”. E agora, estás a brindar e a abraçar as tuas amigas, enquanto pensas que provavelmente esse top também já viu noites de risadas, brindes e abraços entre a tua mãe e as amigas dela.
Ou surripiar do armário do avô uma camisa que sabemos que ele não usa há uns bons anos. Usá-la como ele nunca a usou: com os botões de cima abertos, fora das calças e assumindo completamente o estilo oversize. A dada altura, reparas num mini rasgão na manga. “Avô, como é que fizeste isto?” e, com sorte, podes preparar-te para uma mini história sobre um dia de trabalho, uma festa da aldeia ou uma ida ao correio para enviar uma carta especial.
Talvez estejas prestes a fazer uma viagem e a tua avó te passe para a mão um cardigan que já não lhe serve e que ela ainda tinha guardado algures numa gaveta. “Leva este. Fica-te bem e lá para onde vais tens de te agasalhar”, diz ela. “Nunca te vi usá-lo, avó. Quem to deu?”, perguntas. E, quem sabe, ela pode soltar um “foi o teu avô quando fizemos 30 anos de casados”. Se assim for, estarás tu, dali a uma semana, numa cidade a kms de distância onde a tua avó nunca esteve (e que talvez nunca chegue a visitar), com o corpo abraçado por uma prenda escolhida pelo teu avô e estimada pela tua avó.
As peças de roupa têm história; de quem as comprou, do Natal em que foram oferecidas, de um dia particularmente especial em que foram usadas… pensamos sempre nelas desse modo passivo, mas têm muito mais importância do que reconhecemos. Afinal, se disseres à tua amiga para irem sair à noite, ou que vais ter um jantar fora, ou até que estás a pensar despedir-te, é certo que, em algum momento, vai surgir a pergunta “e já sabes o que vais vestir?”.
Se tiveres a sorte de ter familiares adeptos da partilha, é este o teu sinal para ires vasculhar os armários com eles e conheceres mais um trecho da sua vida que ainda não tinham partilhado.
Quantas histórias (quantas pessoas?) cabem numa mesma peça?
#GlitterUpYourLife