Journaling: acalmar a mente e organizar ideias

O journaling é uma prática que tem ganho muitas adeptas nos últimos anos. Seja ensanduichada entre almofadas no conforto da nossa cama, sentada num jardim ao ar fresco ou acompanhada de um latte quentinho num café tranquilo, tem o propósito de aprofundar o autoconhecimento e de abrandar o fluxo de pensamentos em catadupa (muito característicos das nossas rotinas atuais).

Mas um journal não é um diário. Ainda que a ideia seja “deitar cá para fora”, depreende também uma outra camada mais complexa e íntima que se segue a esse simples relato do que aconteceu. Enquanto num diário falamos do nosso dia, do que experienciámos e eventualmente de como isso nos fez sentir, num journal a escrita é mais intencional e consciente; identificamos as emoções que vêm à tona, procuramos entender a sua origem e relacionamos o presente com alguma vivência passada que, por motivos bons ou não tão bons, ficou na memória. Por isso, um journal é mais flexível na sua forma, pois foca-se em refletir e explorar pensamentos, ideias, sonhos, inspirações e soluções… e, para algumas mentes criativas, serve até para acomodar sketches, listas e brainstorming.

Portanto, não, o journaling não faz sentido apenas quando estamos tristes, mas é verdade que costumamos sentir emoções mais delicadas – e com uma história mais intrincada – precisamente nessas ocasiões. E, nesse caso, o journal é um ótimo aliado para desenvolver compreensão emocional, autoexpressão e acompanhar hábitos e padrões.

Assim sendo, se um diário se foca mais no registo da rotina e o journal na introspeção mais profunda, uma ideia muito recorrente é deixar-nos guiar pelos chamados prompts (que podemos traduzir livremente para “perguntas”). Estes prompts são, no fundo, pontos de partida que nos permitem refletir sobre áreas que podemos estar a negligenciar um bocadinho (até de forma inconsciente). 

Como assim “de forma inconsciente”?

Bem, quando nos aventuramos pelos meandros deste inner work (trabalho interno), vamo-nos dando conta de que há algumas partes da nossa vida que estão meio às escuras – alguma situação mais complicada que ficou por endereçar ou que temos vergonha de reconhecer e abordar. Nesses casos, é normal assumirmos uma postura de quem tenta esquecer ou ignorar o passado… mas isso nunca nos leva muito longe, pois não? Volta e meia, surge outra situação ou aparece outra pessoa que nos relembra que ainda há uma ferida sensível algures. Por isso, um caminho possível dentro deste “trabalho interno” é o chamado shadow work (trabalho da sombra): dar atenção às partes de nós que tendemos a esconder, rejeitar e deixar debaixo do tapete.

Quer já estejas familiarizada com todo este tópico quer não, aqui vão algumas ideias de perguntas que podes usar para orientar a tua prática de journaling! E, já que nem toda a escrita tem de acabar a remexer e escavar coisas da infância às 23:47h, também te deixo algumas destas perguntas que podes colocar-te para aprofundar a simples auto-observação.

Inner Work

  • O que está a ocupar espaço na minha cabeça ultimamente? Estou a dar-lhe atenção ou a evitar pensar nisso? 
  • De que preciso neste momento? Tenho realmente dado espaço a essa necessidade?
  • Em que momentos me sinto mais eu própria? O que têm esses momentos em comum?
  • O que me tem dado energia? E o que me tem silenciosamente drenado?
  • Que parte da minha vida está a pedir mais atenção?
  • O que tenho evitado sentir, pensar ou admitir? Porquê?
  • Que conversa tenho tido repetidamente comigo mesma? Tem-me nutrido? Falaria assim com a minha melhor amiga? Poderia ser mais gentil?
  • O que mudou em mim nos últimos meses que talvez ainda não tenha reconhecido?
  • Se não tivesse de justificar as minhas escolhas a ninguém, o que escolheria agora?

Shadow Work

  • Que características nos outros me irritam desproporcionalmente – e o que poderá isso dizer sobre mim?
  • Que parte de mim tento esconder dos outros? E de onde vem essa necessidade de lhe tirar luz?
  • Quando sinto inveja, o que é que ela revela sobre o que desejo para mim?
  • Que tipo de pessoa tenho medo de ser? Há alguém que tenha conhecido que me ocorre quando penso nisto? 
  • Que comportamento meu tento justificar, mesmo sabendo que não me faz bem?
  • Em que situações sinto necessidade de provar o meu valor?
  • Que crítica me custa particularmente ouvir? Porquê?
  • Que versão de mim aprendi que era mais fácil de amar ou aceitar?
  • O que faço para ser aceite que talvez já não queira continuar a fazer?
  • Que sentimentos considero “feios” ou inadequados em mim? O que acho que aconteceria se lhes desse espaço sem me julgar?
  • Que padrão continuo a repetir, mesmo sabendo como termina?

Auto-observação

  • O que aconteceu hoje? E, mais importante: o que senti enquanto acontecia?
  • Qual foi o momento do dia em que reagi instintivamente em vez de responder com sensatez?
  • Que pensamento apareceu hoje várias vezes?
  • O que me surpreendeu em mim hoje?
  • Houve algum momento em que o meu corpo disse algo antes de a minha cabeça perceber? Surgiu algum desconforto – nó na garganta, peso no peito, tensão no maxilar, punhos fechados…?
  • Que situação aparentemente pequena teve uma reação grande da minha parte? Porquê?
  • Se pudesse voltar a um momento de hoje, o que observaria com mais atenção?

Experimenta pegar num caderno que tenhas aí por casa e escrever o quanto te apetecer. Se mantiveres esta prática, é muito curioso daqui a uns anos voltar a cadernos mais antigos e ver o que mudou: comportamentos, pensamentos, círculos, dinâmicas… 

Por que pergunta te apetece começar hoje?

#GlitterUpYourLife