Abres o LinkedIn a meio da manhã, só para espreitar rapidamente, e em cinco minutos já viste três pessoas anunciarem promoções, uma a celebrar o “melhor ano da carreira até agora” e outra a agradecer, emocionada, por ter sido escolhida para um desafio que nem sequer sabias que existia. Fechas a aplicação com aquela sensação estranha de estares, de alguma forma, a ficar para trás. Se isto te soa familiar, não estás sozinha, e a boa notícia é que o problema não é a tua carreira. É o espelho deformado que a rede está a mostrar-te.
A cultura do “estou muito grato por este novo desafio”
O LinkedIn tornou-se, nos últimos anos, um dos maiores palcos daquilo que os psicólogos chamam de positividade tóxica: a ideia de que qualquer momento profissional, mesmo um despedimento, uma reestruturação ou uma saída forçada, tem de ser embrulhado em gratidão e otimismo, sob pena de parecer pouco profissional. Esta forma de pensamento positivo levado ao extremo não é saúde emocional, é antes uma forma de negação, que reprime emoções legítimas e, a prazo, intensifica o próprio sofrimento que tenta evitar. O resultado é um feed onde praticamente ninguém partilha a fase de dúvida, a candidatura que não correu bem ou o dia em que apeteceu desistir de tudo.
O que a investigação diz sobre este fenómeno
Este desconforto que sentes ao percorrer o feed tem, aliás, nome próprio na literatura académica. Um estudo recente sobre comparação social nesta rede identificou uma associação clara entre o medo de ficar de fora, conhecido como FoMo, a comparação social e aquilo a que os investigadores chamam de “perseguição corporativa”, o hábito de andar constantemente a rever os perfis e conquistas de colegas ou concorrentes. Como a maioria das pessoas tende a mostrar apenas uma versão mais positiva de si mesma nas redes sociais, com cargos elevados e conquistas cuidadosamente escolhidas, é natural que quem consome esse conteúdo acabe envolvido numa comparação constante e desgastante, associada até a problemas de sono em utilizadores mais compulsivos.
A carreira que ninguém publica
O que raramente aparece no feed é o resto da história: os meses em que a candidatura ideal nunca chegou a resposta nenhuma, a exaustão de aceitar um projeto só porque era preciso pagar as contas, as reuniões em que ninguém percebeu bem o que estava a ser pedido, ou a sensação de estagnação que qualquer carreira, mesmo as mais brilhantes, atravessa em algum momento. Ninguém publica o dia em que chorou no carro do parque de estacionamento antes de entrar numa reunião importante, nem a insegurança de comparar o próprio percurso ao de alguém que, no fundo, também só está a mostrar a parte editada da sua história.
Como olhar para o LinkedIn sem se perder nele
Talvez a mudança mais simples comece por lembrar, sempre que abrires a aplicação, que estás a ver um showreel e não um documentário. Ajuda também limitar o tempo de scroll sem propósito, guardando a rede para momentos em que a vais usar de forma ativa, e não como forma automática de preencher pausas. E, sempre que sentires aquele aperto no peito ao ver a conquista de outra pessoa, vale a pena perguntar: isto reflete mesmo a minha realidade profissional, ou apenas a versão mais editada da vida de outra pessoa?
No fim, talvez a carreira mais interessante não seja aquela que parece perfeita no LinkedIn, mas aquela que, com todos os altos e baixos que ninguém publica, continuas a construir todos os dias.
#GlitterUpYourLife