Enxaquecas: perguntas & respostas a uma especialista para entender melhor e reduzir o estigma

No Dia Europeu da Enxaqueca, quisemos ver esclarecidas algumas das perguntas mais frequentes no que diz respeito a esta doença. Estima-se que 12 e 15% da população portuguesa sofra de enxaquecas e as mulheres são as mais afetadas. Não haveria pessoa melhor para responder às nossas questões que a médica Raquel Gil-Gouveia. É Médica Neurologista do Hospital da Luz Lisboa, Especialista e Investigadora em Cefaleias, Professora na Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa e Membro da direção da Federação Europeia de Cefaleias.

Quantas pessoas sofrem de enxaqueca?

A enxaqueca é uma das doenças neurológicas mais comuns e incapacitantes do mundo. Segundo o estudo Global Burden of Disease, afeta cerca de 1,1 mil milhões de pessoas (cerca de 15% da população do plantea), sendo a segunda maior causa de anos vividos com incapacidade global e a primeira entre mulheres abaixo dos 50 anos. E não é apenas um problema de adultos já que cerca de 8% das crianças e 20% dos adolescentes têm enxaqueca. Isto significa faltas à escola, dificuldades de concentração, impacto emocional e muitas vezes incompreensão, porque ainda existe a ideia errada de que “deve ser psicológico”.

A enxaqueca é só uma dor de cabeça mais forte?

Não. A dor é apenas uma parte das crises. Os critérios da de diagnóstico de enxaqueca são clínicos e incluem dor moderada a intensa, pulsátil, agravada pela atividade física, acompanhada de náuseas, vómitos e sensibilidade à luz e ao som. Mas há sintomas menos conhecidos que também fazem parte da enxaqueca e que contribuem para o estigma por serem mal compreendidos: dificuldade em pensar, falar ou tomar decisões, sensação de lentidão mental, vertigem, desequilíbrio, dor no pescoço, visão turva, lacrimejo, nariz tapado ou a pingar. Muitas pessoas descrevem que, antes da dor, já sentem que “o cérebro não está a funcionar como devia”. Tudo isto é neurológico, não é, de todo, psicológico.

Há coisas que me provocam crises?

Sim, mas não são iguais para todas as pessoas. A enxaqueca é uma doença em que o cérebro reage de forma exagerada a alterações internas e externas. A menstruação é um dos gatilhos mais comuns, devido às oscilações hormonais. As alterações nos padrões de sono também são críticas – tanto dormir pouco como dormir demasiado pode precipitar crises. Alterações bruscas no ritmo diário, como em viagens, mudanças de horário, fins de semana muito diferentes da rotina, também podem desencadear sintomas.  

A alimentação é outro ponto importante, mas muitas vezes mal interpretado. Não existe uma lista universal de alimentos proibidos. O que se sabe é que ficar muitas horas sem comer, desidratar ou ter refeições muito irregulares pode precipitar crises. Algumas pessoas identificam alimentos específicos, como chocolate ou vinho tinto, mas isso não é verdade para todos. O mais importante é observar padrões pessoais, sem assumir que tudo é um gatilho.  E há ainda fatores menos óbvios: luz intensa, cheiros fortes, calor, esforço físico súbito, stress acumulado ou até o relaxamento depois de um período de tensão. Nada disto é psicológico; é fisiologia.

O que posso fazer para evitar gatilhos sem viver preso a rotinas?

Há medidas simples que ajudam a estabilizar o cérebro: manter horários regulares de sono, fazer refeições equilibradas e sem grandes intervalos, hidratar-se bem, praticar exercício físico regularmente e trabalhar estratégias de gestão de stress e ansiedade. Estas medidas funcionam porque dão ao cérebro um ambiente mais previsível, diminuindo a probabilidade de uma crise.  

Mas é essencial dizer isto com clareza: não devemos ser reféns destas rotinas. A enxaqueca não deve impedir ninguém de viver a sua vida, viajar, sair com amigos, trabalhar, estudar ou divertir-se. Evitar gatilhos não significa evitar a vida. Se a pessoa começa a sentir que está a organizar tudo à volta da enxaqueca, com medo constante de uma crise, isso é um sinal de que precisa de apoio médico. A enxaqueca é tratável, e quando a doença começa a limitar a vida, é porque o tratamento não está otimizado.

Quando devo procurar um médico?

É fundamental procurar ajuda quando a medicação de crise não resolve a dor em menos de duas horas, quando há mais de seis ou mais dias por mês com crises (mesmo que controladas) ou quando as crises são tão incapacitantes que levam a faltas ao trabalho ou à escola, ou a idas frequentes ao serviço de urgência. Também deve procurar apoio quem tem sintomas neurológicos marcados, como vertigem intensa, confusão, fala difícil ou fraqueza. Nestes casos, pode ser necessário ajustar o tratamento ou iniciar uma estratégia preventiva.

A enxaqueca é psicológica?

Não. Mas é invisível. No entanto é a doença neurológica mais frequente e incapacitante, associada a alterações reais na forma como o cérebro processa estímulos sensoriais. O stress pode piorar crises, mas não causa a doença. Dizer que “é psicológico” aumenta o estigma, afasta as pessoas do tratamento adequado e faz com que muitos sofram em silêncio.

Qual é a mensagem principal deste Dia Europeu da Enxaqueca? 

Que quem sofre não está sozinho. Que a enxaqueca é comum, real e tratável. Que compreender melhor os sintomas (todos eles) é o primeiro passo para reduzir o estigma. E que viver com enxaqueca não significa viver com medo: significa conhecer a doença, procurar apoio quando necessário e reivindicar qualidade de vida.

Artigo por Raquel Gil-Gouveia, Médica Neurologista do Hospital da Luz lisboa, Especialista e Investigadora em Cefaleias, Professora na Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa e Membro da direção da Federação Europeia de Cefaleias

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