Peixe cru, maracujá, doses generosas de lima, pisco picante e um lugar ao balcão onde podemos assistir à cozinha em direto. A Glitter Team foi experimentar A Cevicheria, do chef Kiko Martins, e saiu do Príncipe Real com uma certeza: este é daqueles restaurantes onde não vamos apenas jantar. Vamos viajar. E sim, leva o nosso selo de aprovação.
Instalado no coração do Príncipe Real, na Rua Dom Pedro V, o espaço do chef Kiko Martins parte do ceviche para explorar peixe e marisco, juntando acidez, frescura e diferentes influências numa cozinha pensada para partilhar. Nós fomos experimentar. E começámos exatamente como se deve começar: com um pisco na mão. Havia duas versões e o nosso favorito foi o picante, que acabou por funcionar quase como uma introdução ao que viria a seguir. Fresco, intenso e com aquele pequeno kick que acorda imediatamente o palato, ficou perfeito com os pratos seguintes. O próprio restaurante assume o pisco como parte da experiência e percebe-se rapidamente porquê.
Depois veio a lima. E aqui precisamos de fazer uma confissão coletiva: não sabíamos que a lima conseguia fazer tanto por um prato. Nos ceviches, a acidez não aparece apenas para temperar; parece abrir todos os outros sabores. Peixe, ervas, picante, fruta, cada elemento fica mais vivo. Foi provavelmente a maior descoberta da noite e aquilo que melhor explica essa sensação de sermos transportados para a América Latina sem sair de Lisboa.
E depois aconteceu o maracujá. A combinação de fruta tropical com peixe pode parecer inesperada para quem nunca experimentou, mas foi precisamente um dos contrastes de que mais gostámos. Doce, ácido, fresco e intenso ao mesmo tempo, há pratos que parecem despertar todos os sentidos de uma só vez. Chamem-lhe química, chamem-lhe combinação de sabores; nós saímos de lá a falar numa experiência quase afrodisíaca (e vamos manter essa descrição).
A identidade d’A Cevicheria sempre teve uma forte ligação ao Peru e à América do Sul, embora a cozinha de Kiko Martins cruze essas referências com ingredientes e sabores portugueses. Em 2026, o restaurante renovou ainda a carta, reforçando o foco no peixe e marisco do Atlântico e em produtos nacionais, mantendo o ceviche como ponto de partida, mas alargando a linguagem da casa ao mar de uma forma mais abrangente.



Mas uma experiência destas nunca é só aquilo que chega ao prato. O staff foi uma das grandes surpresas da noite. Há restaurantes onde o serviço é tecnicamente irrepreensível e, ainda assim, sentimos que estamos num restaurante. Aqui aconteceu o contrário: o chef de sala consegue criar imediatamente aquela sensação de que entrámos numa casa onde genuinamente estão contentes por nos receber. Faz a sala, percebe as pessoas, aproxima-se sem invadir e consegue que nos sintamos confortáveis desde o primeiro minuto. É uma diferença difícil de colocar numa ficha técnica, mas impossível de não notar.
O espaço ajuda. É acolhedor, pequeno o suficiente para sentirmos a energia da cozinha e tem aquele famoso polvo suspenso sobre o balcão que já se tornou praticamente parte da identidade visual da casa. A localização também não podia ser melhor: estamos em pleno Príncipe Real, numa zona onde um jantar facilmente se transforma num copo antes, outro depois e uma noite inteira sem ser necessário pegar no carro.
Mas, se pudermos escolher, sentem-se ao balcão. Foi provavelmente uma das partes de que mais gostámos. Comer enquanto vemos os pratos nascerem à nossa frente muda completamente a experiência. Vemos o peixe ser preparado, acompanhamos os movimentos da equipa, percebemos melhor os ingredientes e existe uma proximidade com a cozinha que transforma o jantar quase num pequeno espetáculo, sem que ninguém esteja propriamente a tentar fazer espetáculo.
E depois há o chef Kiko Martins. É fácil associar grandes chefs a uma certa dose de ego. Aqui encontrámos precisamente o contrário. Kiko é cool, descontraído, terra a terra e aparentemente muito mais interessado em que as pessoas estejam felizes à mesa do que em recordar-lhes quem criou o prato. Essa simplicidade acaba por combinar bastante bem com aquilo que o próprio restaurante diz procurar: boa comida, partilha e poucas formalidades.
No final, percebemos porque A Cevicheria continua a ser uma referência em Lisboa mais de uma década depois de abrir portas, em 2014. Não foi apenas um ceviche de que gostámos ou um pisco que pediríamos outra vez. Foi o conjunto: a lima que agora respeitamos muito mais, os contrastes de fruta e peixe, o balcão, a equipa, o ambiente e aquela sensação de termos viajado durante umas horas sem sair do Príncipe Real.
Selo de aprovação da Glitter Team: aprovado. E com vontade de voltar.



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