“Então, já tens namorada(o) na escola nova?”

A pergunta, atirada entre sorrisos num almoço de família, carrega um peso desnecessário. Entrar para a escola significa expandir o mundo social e construir os primeiros afetos fora de casa. Não significa namorar. Ao colar etiquetas adultas em ligações infantis, antecipamos conceitos que a criança não tem maturidade para processar. Mais do que isso, ao assumir logo essa expetativa heteronormativa, fechamos portas sem qualquer necessidade: sabemos lá se mais tarde vai gostar de rapazes, de raparigas ou de quem quer que seja. As crianças não namoram; aprendem a vincular-se.

Sob o olhar da psicologia do desenvolvimento, a infância exige segurança e espontaneidade. Quando rotulamos uma amizade como “namoro” e pressupomos a orientação afetiva da criança, introduzimos precocemente noções de exclusividade e validação externa. O outro deixa de ser um parceiro de jogo para passar a ser um papel a desempenhar. A criança aprende que o afeto tem regras rígidas impostas pelos adultos, o que pode gerar vergonha, repressão e ansiedade caso os seus sentimentos futuros não correspondem a esse modelo predefinido.

É na psicossomática que a ansiedade invisível ganha corpo, e qualquer pai ou mãe reconhece este impacto no dia a dia. Sem vocabulário emocional para traduzir o desconforto de ser colocada numa caixa que não entende, o corpo infantil fala. É a dor de barriga misteriosa antes de sair para a escola, a náusea no carro, a perda repentina de apetite, o roer as unhas ou o sono agitado. A tensão acumula-se no sistema nervoso porque a criança sente o peso e a exposição de uma expetativa social que não tem capacidade para gerir.

Poeticamente, a infância recusa caixas e etiquetas. Uma criança não namora; uma criança descobre o mundo. O laço do recreio não é um compromisso nem uma definição sobre a sua sexualidade futura: é apenas uma corrida até ao baloiço ou um lanche partilhado. Proteger essa etapa é defender a amizade no seu estado puro, garantindo total liberdade afetiva para o futuro, sem pares obrigatórios, sem pressões de género e sem a apressada lente dos adultos.

Na prática, a mudança exige apenas ajustar a nossa escuta. Quando o seu filho falar de uma nova amizade, substitua o “Aí há namoro!” por: “Que bom! A que é que brincaram hoje?”. Se a família insistir no assunto, intervenha de forma leve e assertiva: “Agora o tempo é de ter amigos. Mais tarde logo se vê de quem vai gostar, o importante é que seja feliz.” É assim que devolvemos à criança a liberdade de apenas crescer.

Artigo por Francisca Silva Ferreira, psicóloga do Núcleo CASA no Porto @nucleo_casa

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