Houve uma época relativamente simples em que sair do escritório significava, literalmente, deixar o trabalho para trás. O computador ficava na secretária, o telefone de casa dificilmente recebia mensagens do grupo de Teams às 21h47 e ninguém passava férias na praia a responder a emails entre dois mergulhos. Depois chegaram os smartphones, o teletrabalho, o Slack, o Teams, o WhatsApp e uma ideia aparentemente inofensiva chamada “só te mando agora para não me esquecer”. De repente, aquilo que era excecional tornou-se suficientemente frequente para começarmos a questionar se faz parte das novas regras do trabalho.
E os números mostram que as fronteiras realmente ficaram mais difusas. Uma análise da Microsoft a sinais agregados de utilização do Microsoft 365 encontrou uma média de 58 mensagens por utilizador enviadas antes ou depois do tradicional horário das 9h às 17h, com os chats fora de horas a aumentarem 15% num ano. As reuniões iniciadas depois das 20h também aumentaram 16%. A empresa chamou ao fenómeno infinite workday: o dia de trabalho que começa cedo, continua ao longo do horário normal e reaparece ao serão.
Talvez a primeira regra da nova etiqueta devesse, portanto, ser distinguir enviar de esperar resposta. Há pessoas que preferem limpar a caixa de entrada ao domingo ou enviar uma ideia às onze da noite porque é quando se lembram dela. O problema começa quando quem recebe sente que aquela mensagem vem acompanhada por uma obrigação invisível de resposta imediata. Agendar o envio de um email para a manhã seguinte é uma solução elegantíssima e subestimada. Se for realmente necessário enviá-lo naquele momento, um simples “não precisa de responder agora” também ajuda, desde que seja mesmo verdade.
Em Portugal, esta questão vai além das boas maneiras. O Código do Trabalho estabelece que o empregador deve abster-se de contactar o trabalhador durante o período de descanso, salvo situações de força maior, e considera contraordenação grave a violação dessa obrigação. A lei prevê ainda que o trabalhador não pode ser prejudicado por exercer o seu direito ao descanso. A Direção-Geral da Administração e do Emprego Público esclarece inclusivamente que esse contacto inclui o envio de emails. Portanto, aquela ideia de que “mandar uma mensagem não custa nada” merece alguma revisão: para quem está do outro lado, pode significar voltar mentalmente ao trabalho quando já tinha saído dele.
As férias talvez sejam o teste máximo desta nova etiqueta. Colocar out of office e continuar a responder a tudo tornou-se estranhamente comum e, pior, pode criar uma expectativa para toda a equipa: se uma pessoa responde durante as férias, começa a parecer que todos deveriam fazê-lo. A alternativa mais saudável é também a mais simples. Antes de sair, deixar assuntos urgentes encaminhados, indicar quem pode ser contactado e aceitar que durante alguns dias outra pessoa pode resolver coisas sem nós. Uma empresa que não consegue funcionar porque uma pessoa passou quatro dias sem consultar o email talvez tenha um problema de organização maior do que essa pessoa imagina.
Depois temos as reuniões, esse lugar onde a etiqueta profissional moderna parece precisar desesperadamente de uma atualização. A Microsoft encontrou 60% de reuniões não agendadas entre os utilizadores com maior volume de reuniões e, num estudo anterior, 68% dos trabalhadores disseram não ter tempo de concentração suficiente sem interrupções. Talvez a pergunta antes de carregar em “Nova reunião” devesse ser: precisamos realmente de estar cinco pessoas durante 45 minutos numa chamada para resolver isto? Se a resposta cabe num email ou numa mensagem, provavelmente já temos a resposta.
E há ainda o horário. No regime português de teletrabalho, as reuniões à distância devem decorrer dentro do horário de trabalho e ser, preferencialmente, marcadas com pelo menos 24 horas de antecedência. Uma reunião marcada às 17h55 para discutir um assunto que surgiu às 17h50 pode ser inevitável uma vez. Quando acontece todas as semanas, deixa de ser urgência e começa a ser cultura.
Quanto às câmaras ligadas, talvez possamos finalmente abandonar a ideia de que uma cara num quadradinho é automaticamente prova de atenção. Há reuniões em que ver as pessoas melhoram claramente a comunicação, como apresentações, conversas pequenas, momentos em que existe uma componente humana importante, mas transformar “camera on” numa obrigação permanente não é necessariamente sinónimo de maior envolvimento. Investigação de Stanford identificou vários mecanismos associados à chamada Zoom fatigue, incluindo contacto visual excessivo, exposição constante à própria imagem e menor liberdade de movimento; outros trabalhos experimentais encontraram maior fadiga quando os participantes mantinham a câmara ligada. Portanto, desligar a câmara numa reunião longa não significa necessariamente estar secretamente a lavar a loiça. Às vezes significa apenas querer ouvir sem passar mais uma hora a olhar para a própria cara.
Também mudou a etiqueta das mensagens instantâneas. O ponto verde deixou de significar necessariamente “estou disponível”. Pode significar apenas que o computador está ligado. Um “Olá” seguido de cinco minutos de silêncio obriga a outra pessoa a interromper o que está a fazer para descobrir o que vem aí; escrever logo “Olá, quando puder, preciso de confirmar X” talvez seja uma das formas mais simples de respeitar o tempo alheio. E o mesmo vale para o temido “tens dois minutos?”, frase que raramente anuncia uma conversa de dois minutos.
No fundo, a nova etiqueta do trabalho talvez tenha menos a ver com regras rígidas e mais com não transformar a nossa urgência na urgência dos outros. Não assumir que disponibilidade digital significa disponibilidade emocional ou profissional. Não confundir resposta rápida com dedicação. Não avaliar empenho pelo número de horas em que alguém aparece online. Não marcar reuniões apenas porque é mais fácil falar do que organizar uma ideia por escrito. E não obrigar alguém a demonstrar que está a trabalhar através de uma câmara ligada oito horas por dia.
A tecnologia tornou possível trabalhar praticamente em qualquer lugar e a qualquer hora. Isso foi, em muitos aspetos, uma conquista extraordinária. O problema apareceu quando “podemos” começou lentamente a significar “devemos”.
Talvez a verdadeira nova etiqueta profissional seja precisamente esta: o facto de conseguirmos chegar a alguém a qualquer momento não significa que tenhamos de o fazer.
#GlitterUpYourLife