Quem não sabe, não estraga

Com a idade, começamos a perceber que nem tudo precisa de ser anunciado enquanto ainda está a acontecer. Há sonhos que crescem melhor longe das opiniões, planos que precisam de silêncio e felicidades que não ganham absolutamente nada por serem explicadas antes do tempo. Talvez os nossos avós soubessem alguma coisa quando diziam: “quem não sabe, não estraga”.

Quando somos mais novos, temos uma espécie de urgência em contar. Começámos a falar com alguém? Contamos. Temos uma ideia para um projeto? Contamos. Estamos quase a conseguir aquele trabalho? Contamos. Pensamos mudar de casa, fazer uma viagem, abrir um negócio, terminar uma relação, começar outra, tentar engravidar, mudar de cidade? Contamos. Às vezes ainda nem aconteceu e já existe uma pequena assembleia geral convocada para discutir o assunto.

E depois envelhecemos. Não de uma forma dramática. Simplesmente acumulamos situações suficientes para começar a perceber que talvez nem toda a gente precise de acompanhar o making of da nossa vida. É aí que aquele velho ditado português, “quem não sabe, não estraga”, começa estranhamente a fazer sentido.

Não porque acreditamos necessariamente que alguém possa destruir um projeto através de inveja, mau-olhado ou uma qualquer força cósmica lançada depois do almoço. Mas porque aprendemos que, assim que contamos uma coisa, ela deixa de pertencer exclusivamente a nós. Passa a vir acompanhada de opiniões. “Tens a certeza?” “Isso é arriscado.” “A prima de uma amiga tentou e correu pessimamente.”

Às vezes nem existe maldade. As pessoas estão simplesmente a olhar para o nosso plano através dos seus próprios medos, experiências e limites. O problema é que, se estivermos ainda naquela fase frágil em que uma ideia está a começar a ganhar forma, uma opinião dita casualmente pode ocupar muito mais espaço do que devia.

Com o tempo, aprendemos a reconhecer essa fase. Aquele momento em que alguma coisa ainda é demasiado nova para ser discutida. Não está pronta para uma votação. Precisa apenas de tempo. Talvez seja uma das formas mais discretas de maturidade: deixarmos de sentir que tudo o que nos acontece precisa imediatamente de validação externa.

Há decisões que antes contaríamos a dez pessoas e agora contamos a duas. Outras, a uma. Algumas, a ninguém. Fazemos primeiro. Contamos depois. E isso torna-se profundamente libertador.

Quando ninguém sabe que estamos a preparar uma mudança profissional, podemos decidir sem responder constantemente a “então, novidades?”. Quando não anunciamos que começámos uma relação, podemos descobrir tranquilamente se gostamos realmente daquela pessoa antes de começarmos a explicar a relação aos outros. Quando guardamos um projeto durante algum tempo, podemos alterá-lo, falhar, recomeçar e mudar completamente de ideias sem a sensação de que temos uma plateia à espera do resultado.

E, sobretudo, podemos desistir. Essa também é uma liberdade subestimada. Existem ideias que parecem maravilhosas durante duas semanas e depois deixam de fazer sentido. Quando ainda não contámos ao mundo que vamos abrir uma pousada no Alentejo, aprender japonês e lançar uma marca de velas artesanais, podemos simplesmente concluir que afinal não queremos fazer nenhuma dessas coisas. Sem comunicado oficial.

Talvez também seja por isso que algumas pessoas dizem sentir que as coisas “correm melhor” quando não contam. Não é obrigatório haver superstição envolvida. Às vezes existe apenas menos ruído. Menos perguntas. Menos expectativas. Menos necessidade de justificar decisões que ainda estamos a tentar compreender. Menos energia gasta a explicar aquilo que poderíamos estar simplesmente a fazer.

E depois existe a comparação. Quando contamos uma coisa boa, nem todas as reações chegam da forma que imaginávamos. Há pessoas que celebram connosco sem reservas. São preciosas. Há outras que fazem imediatamente uma comparação com a própria vida. Outras relativizam. Outras fazem uma pergunta que estranhamente consegue retirar metade da alegria ao momento.

Com a idade também aprendemos isto: nem toda a gente merece acesso em tempo real às coisas boas que nos acontecem. Não por vingança. Por intimidade. Durante muito tempo confundimos proximidade com informação. Achávamos que ser amigo significava saber tudo, imediatamente. Hoje talvez percebamos que podemos amar profundamente alguém sem lhe enviar a ata completa de todas as decisões da semana.

Aliás, algumas das coisas mais importantes da nossa vida começam a saber melhor quando primeiro as vivemos. Sem fotografia. Sem mensagem no grupo. Sem anúncio. Sem pedir opinião. Há uma diferença enorme entre segredo e privacidade. Um segredo carrega muitas vezes peso. Privacidade pode ser apenas uma escolha: isto ainda é meu.

E as redes sociais tornaram essa distinção ainda mais necessária. Habitámo-nos a contar enquanto acontece. A viagem ainda começou e já estamos a publicá-la. O jantar ainda não chegou à mesa e já foi mostrado. O projeto ainda não existe e já tem teaser. A relação ainda está a descobrir-se e já tem aniversário público.

Nunca tivemos tanta facilidade em mostrar. Talvez por isso comece a parecer tão sofisticado não mostrar.

Guardar uma viagem até voltar. Fazer uma mudança sem produzir conteúdo sobre “a minha nova fase”. Trabalhar em silêncio durante meses e aparecer um dia com aquilo terminado. Ter uma relação feliz que não precisa de provar semanalmente que é feliz.

Naturalmente, isto não significa transformarmo-nos naquela pessoa misteriosa que responde “logo se vê” quando perguntam o que vai jantar. Partilhar continua a ser uma das melhores partes de ter pessoas na nossa vida. Há momentos em que precisamos de conselho, colo, entusiasmo e alguém que nos diga para avançar.

A sabedoria é perceber quem precisa de saber, o quê e quando. Porque nem todas as pessoas que gostam de nós sabem aconselhar-nos. Nem todas as pessoas que nos aconselham conhecem suficientemente a nossa vida. E nem todas as decisões precisam de consulta pública.

Quando somos novos, queremos que as pessoas saibam o que vamos fazer. Mais tarde começamos a gostar de lhes contar aquilo que fizemos. Existe uma diferença. A primeira procura muitas vezes aprovação. A segunda partilha uma realidade que já não depende dela.

Hoje começo a gostar de projetos silenciosos, planos que ainda ninguém conhece e alegrias que ficam durante algum tempo apenas dentro de casa. Depois, quando estiver feito, quando estiver sólido, quando já não houver opinião capaz de o alterar, contamos. Ou não. Com a idade descobrimos também que essa opção existe.

#GlitterUpYourLife