Estão nas listas de “100 livros antes de morrer”, aparecem nas conversas de pessoas que sublinham frases a lápis e são frequentemente comprados com a melhor das intenções antes de passarem seis meses na mesa de cabeceira. Orwell, Kafka, Saramago, Virginia Woolf, Jane Austen: escolhemos sete clássicos que toda a gente diz que temos de ler e explicamos porque é que, afinal, talvez valha mesmo a pena fazê-lo.
1. 1984, George Orwell. “Big Brother”, vigilância, manipulação da linguagem, controlo da informação, reescrever o passado: mesmo quem nunca leu 1984 provavelmente utiliza conceitos que vieram deste livro. Publicado em 1949, imagina uma sociedade totalitária onde o Estado controla não apenas aquilo que fazemos, mas tenta controlar aquilo que pensamos. O mais inquietante é lê-lo hoje e perceber quantas expressões criadas por Orwell entraram no nosso vocabulário político e tecnológico. Não é propriamente uma leitura alegre para levar para a praia, mas é um daqueles livros que ajudam a perceber porque determinadas palavras aparecem constantemente quando falamos de poder, propaganda e privacidade.
2. A Metamorfose, Franz Kafka. Gregor Samsa acorda uma manhã e descobre que se transformou num inseto gigantesco. E, de alguma forma, esta continua a não ser a parte mais estranha da história. Kafka usa uma situação completamente absurda para falar de família, culpa, trabalho, isolamento e do que acontece quando deixamos de ser “úteis” para os outros. É curto (excelente notícia para quem está a tentar recuperar uma relação com os clássicos) e suficientemente estranho para percebermos porque, mais de cem anos depois, ainda usamos a palavra “kafkiano” para descrever situações absurdas das quais parece impossível escapar.
3. Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley. Se 1984 imagina uma sociedade controlada através do medo, Admirável Mundo Novo faz uma pergunta talvez ainda mais desconfortável: e se fosse possível controlar as pessoas através do prazer? Publicado em 1932, apresenta um futuro onde os seres humanos são condicionados desde o nascimento, o consumo é incentivado permanentemente e qualquer desconforto pode ser rapidamente neutralizado. Não precisamos de concluir que Huxley “previu o futuro” para reconhecer algumas das perguntas que continua a colocar: quanto estamos dispostos a abdicar em troca de conforto, distração e felicidade permanente?
4. Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago. Uma epidemia inexplicável de cegueira começa a espalhar-se por uma cidade e, à medida que as estruturas sociais desaparecem, também começam a desaparecer algumas das regras que julgávamos sólidas. Saramago não identifica a cidade nem dá nomes às personagens, transformando a história numa experiência quase universal sobre medo, poder, egoísmo, solidariedade e aquilo que resta da humanidade quando desaparece a normalidade. A pontuação exige alguns minutos de adaptação, mas depois entramos no ritmo. E há uma forte possibilidade de começarmos a olhar para as pessoas à nossa volta de forma ligeiramente diferente quando terminarmos.
5. Mrs Dalloway, Virginia Woolf. Clarissa Dalloway vai dar uma festa. Parece pouco material para um dos romances mais importantes do século XX, mas é precisamente aí que está Virginia Woolf. A história acontece essencialmente durante um único dia em Londres e entra constantemente nos pensamentos das personagens, cruzando memória, desejo, envelhecimento, casamento, escolhas e saúde mental. Não é um livro para ler à pressa à procura de grandes reviravoltas; é um livro sobre aquilo que acontece dentro de nós enquanto aparentemente não está a acontecer grande coisa. E talvez seja uma boa porta de entrada para perceber porque Woolf mudou tanto a forma de escrever sobre a vida interior.
6. Orgulho e Preconceito, Jane Austen. Quem olha para Jane Austen como simplesmente “romance antigo sobre mulheres que querem casar” está a perder metade da diversão. Elizabeth Bennet é inteligente, teimosa, rápida a julgar e não está particularmente interessada em aceitar um homem apenas porque seria uma decisão socialmente conveniente. Mr. Darcy, por sua vez, tem provavelmente um dos piores primeiros encontros da literatura. Publicado em 1813, Orgulho e Preconceito é romance, claro, mas também ironia, dinheiro, classe, expectativas impostas às mulheres e uma observação bastante afiada sobre a facilidade com que decidimos quem alguém é antes de realmente o conhecer. Além disso, deu-nos Mr. Darcy. Há contribuições culturais que não devem ser subestimadas.
7. O Estrangeiro, Albert Camus. Meursault recebe a notícia da morte da mãe e reage de uma maneira que não corresponde àquilo que a sociedade espera dele. A partir daí, Camus constrói uma história estranha, seca e profundamente desconfortável sobre absurdo, moralidade e o significado que tentamos impor à existência. É outro clássico relativamente curto, o que ajuda, mas deixa uma quantidade desproporcional de perguntas depois da última página. Talvez seja precisamente por isso que continua a aparecer em listas de leituras essenciais: podemos não gostar de Meursault, podemos não concordar com ele, mas é difícil terminar o livro indiferentes.
Há obviamente dezenas que poderiam entrar nesta lista. O Retrato de Dorian Gray, Crime e Castigo, Cem Anos de Solidão, Anna Karenina, O Grande Gatsby, Beloved, As Ondas ou Jane Eyre dariam facilmente uma segunda edição.
Mas estes sete são um bom começo, sobretudo porque desmontam uma ideia injusta sobre os clássicos: a de que foram escritos para serem admirados à distância. Foram escritos sobre poder, relações, sexo, dinheiro, ambição, solidão, medo, liberdade e pessoas a tomar péssimas decisões.
Ou seja, praticamente os mesmos assuntos sobre os quais continuamos a falar. Só que em grupos de WhatsApp.
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