Muito para além do orgasmo: o impacto da saúde sexual no bem-estar psicológico

Há coisas sobre as quais ainda falamos em voz baixa. Dinheiro. Saúde mental. E sexo.

Curiosamente, são três áreas que têm um enorme impacto na qualidade da nossa vida e sobre as quais continuamos a carregar muitos mitos, vergonha e desinformação. Por isso, e aproveitando o Dia Mundial da Saúde Sexual, proponho um pequeno exercício: durante os próximos minutos, esquece tudo aquilo que aprendeste nas revistas dos anos 90, nos filmes românticos e nas conversas de café. Porquê? Porque saúde sexual é muito mais do que sexo. E começa muito antes do quarto, da sala ou de qualquer outro sítio onde possas ter relações sexuais.

A Organização Mundial da Saúde define saúde sexual como um estado de bem-estar físico, emocional, mental e social relacionado com a sexualidade, ou seja, não se resume à ausência de doença nem ao número de relações sexuais que tens. Saúde sexual passa por sentires-te suficientemente confortável no teu corpo, conhecer os teus limites, comunicar desejos, respeitar o consentimento, viver a intimidade sem culpa, medo ou vergonha.

Parece simples. Mas nem sempre é.

Enquanto psicóloga, vejo frequentemente pessoas que chegam à consulta convencidas de que o problema é a ansiedade, a autoestima ou as dificuldades na relação. Muitas vezes, quando começamos a explorar a história, percebemos que existe uma enorme desconexão com a própria sexualidade. Importa saber que a nossa saúde sexual e a nossa saúde mental comunicam entre si – todos os dias. A ansiedade pode diminuir o desejo sexual. O stress crónico interfere com a excitação. A depressão pode reduzir a libido. Problemas de autoestima podem dificultar a intimidade. E dificuldades sexuais persistentes podem, por sua vez, aumentar sentimentos de frustração, culpa, isolamento ou inadequação. É uma via de dois sentidos.

Também é importante desmistificar a ideia de que ter uma vida sexual saudável não se mede, necessariamente, pela frequência nem pela intensidade do desejo. Para algumas pessoas, o sexo pode ocupar um lugar central na sua vida, para outras, não. Desde que essa realidade esteja em sintonia com os teus desejos, valores e bem-estar, não há motivo para a considerar problemática.  O importante é que exista liberdade de escolha. Sem pressão, sem comparação e sem a sensação de que existe uma frequência “normal” ou uma forma “certa” de viver a sexualidade. As redes sociais podem não ajudar muito neste âmbito. Entre casais, aparentemente, perfeitos, conselhos milagrosos para aumentar a libido e promessas de relações sempre apaixonadas, podemos esquecer-nos de que a intimidade real é feita de comunicação, respeito, humor, vulnerabilidade e, muitas vezes, de – perfeitas – imperfeições.

A boa notícia? A saúde sexual pode ser cuidada. E não passa apenas por consultas médicas.

Passa por conheceres melhor o teu corpo. Conversares sobre aquilo de que gostas (e do que não gostas). Aprenderes a colocar limites. Cuidares da tua saúde mental. Ampliares o teu autoconhecimento. Dormires melhor. Reduzires o stress. Porquê? Porque o cérebro continua a ser o maior órgão sexual que temos. E um dos maiores afrodisíacos pode ser sentirmo-nos emocionalmente seguros.

Lembra-te: cuidar da saúde sexual é também cuidar da forma como te relacionas contigo e com os outros. E isso, felizmente, nunca sai de moda.

Helena Paixão
Psicóloga Clínica, Autora e Speaker
CEO & Founder da Clínica Helena Paixão – Psicologia, Mindfulness e Desenvolvimento Pessoal
helenapaixao.com
Helenapaixao.psicologa (IG)