Eles, escritos por elas
Já reparaste? Estás a ver uma série, ou a ler um livro qualquer que nem tinhas grandes expectativas, e de repente aparece ele. E lá vem a pergunta chata: porque é que os homens a sério não são assim?
A resposta óbvia seria dizer que é o físico, ou o dinheiro, ou algum ideal de perfeição impossível de atingir. Mas não, não é nada disso. É uma coisa muito mais pequena e, se calhar por isso mesmo, muito mais difícil de encontrar cá fora: ele dizer “estou com medo” e não desaparecer logo a seguir. Ele aparecer. Só isso. Aparecer e ficar.
Não é por acaso que Off Campus, de Elle Kennedy, e Cartas para Isabelle andam a fazer isto ao público feminino agora mesmo. Há um pormenor em comum nestas personagens masculinas todas irresistíveis: foram escritas por mulheres.
Passámos anos, décadas se calhar, a receber heróis que resolviam tudo e não sentiam nada. Bonitões, competentes, capazes de levantar um carro com uma mão e de fechar-se como um cofre mal alguém lhes perguntasse como estavam. Bonitos, sim. Mas fechados. E, para ser sincera, cansativos. Aprendemos a chamar “misterioso” ao que era só indisponível, e a achar que o silêncio dele queria dizer alguma coisa profunda — quando às vezes queria só dizer silêncio.
Acho que a diferença está mesmo em quem escreve. Uma mulher a escrever um homem sabe o que é estar do lado de cá, não do lado de quem é admirado. Sabe o preço de gostar de alguém que não consegue dizer o que sente. E sabe, sobretudo, a diferença entre um homem que está presente e um homem que só ocupa o sofá ao lado.
Talvez por isso este tipo de personagem esteja a aparecer em todo o lado, dos livros à Netflix. Há uma geração de leitoras que cresceu a decorar falas de heróis calados e que, por fim, está a preferir outra coisa: um homem que diga o que sente em vez de o guardar durante três temporadas inteiras à espera do momento dramático certo.
Não sei se a ficção muda algum homem a sério. Duvido, até. Mas está claramente a mudar o que nós já não estamos dispostas a aceitar como “normal”.
E às vezes basta isso ,deixar de achar bonito o silêncio.
Artigo Por Bruna Coelho Pereira
#GlitterUpYourLife