Ela vive em 1900, quer escrever, trabalhar e decidir o que fazer com a própria vida num mundo que tem outros planos para ela. Nós vemos Uma Carreira Brilhante [Netflix] em 2026, quando uma mulher pode ser escritora, engenheira, CEO ou presidente. E, ainda assim, algumas das batalhas de Sybylla parecem desconfortavelmente familiares.
Há qualquer coisa imediatamente contagiante em Sybylla Melvyn. Não quer ser aquilo que esperam dela, não tem especial vocação para fazer aquilo que fica bem e, sobretudo, tem uma ideia bastante inconveniente para uma jovem mulher da Austrália de 1900: quer ter uma carreira. Em Uma Carreira Brilhante (My Brilliant Career), a nova minissérie de seis episódios da Netflix, Philippa Northeast interpreta esta jovem criada no campo que é enviada para casa da avó, onde deveria aprender a comportar-se, encontrar um bom marido e encaminhar a vida para aquilo que a sociedade considera um final feliz. O problema é que Sybylla tem outros planos. Quer escrever. Quer criar. Quer ser dona da própria história.
O romance está lá, e a série diverte-se bastante com ele, mas é precisamente isso que torna a história tão interessante. A grande escolha de Sybylla não é simplesmente entre dois homens ou entre ficar solteira e casar. É entre uma vida que lhe oferece segurança e uma vida que lhe pertence. A possibilidade de se apaixonar existe; aquilo que ela recusa é a ideia de que o amor tenha obrigatoriamente de significar abandonar a ambição. E, para uma história passada há 126 anos, é surpreendente a facilidade com que essa discussão consegue chegar até 2026.
A origem da personagem torna tudo ainda mais extraordinário. My Brilliant Career foi escrito por Stella Maria Sarah Miles Franklin quando tinha apenas 19 anos e publicado em 1901, quando a autora tinha 21. Franklin assinou como Miles Franklin, um nome masculino, numa época em que as oportunidades profissionais das mulheres eram ainda extremamente limitadas. A própria Sybylla foi construída em grande medida a partir das experiências da autora. O National Museum of Australia considera que a luta da protagonista para se libertar das imposições da vida rural refletia o movimento feminino que começava então a ganhar força no país.
É difícil não sorrir perante a ironia. Uma jovem mulher escreve um romance sobre uma jovem mulher que quer desesperadamente ser escritora e publica-o com um nome que não deixa imediatamente claro que quem o escreveu foi uma mulher. Mais de um século depois, a história transforma-se numa série precisamente porque aquela rapariga insistiu que a sua voz merecia existir.
E é aqui que Uma Carreira Brilhante deixa de ser apenas um bonito drama de época. Porque, obviamente, muita coisa mudou. Hoje uma mulher portuguesa não precisa da autorização de um marido para trabalhar, pode estudar, escolher uma profissão, gerir uma empresa e construir uma vida que não inclua casamento ou filhos. Seria absurdo fingir que vivemos na mesma realidade de Sybylla. Mas igualdade legal e igualdade vivida não são exatamente a mesma coisa.
Em Portugal, as mulheres têm hoje até níveis de escolaridade superiores aos dos homens: entre os 25 e os 34 anos, 48% das mulheres têm formação superior, contra 35% dos homens. Mas basta olhar para algumas áreas profissionais para perceber que a distribuição está longe de ser equilibrada. Nos dados mais recentes do Instituto Europeu para a Igualdade de Género, as mulheres representam atualmente apenas 23% dos especialistas em Tecnologias da Informação e Comunicação em Portugal e 38% dos cargos de gestão. Nos conselhos de administração das maiores empresas cotadas portuguesas, ficam pelos 35%.
Não significa que uma mulher que queira ser engenheira, programadora ou CEO vá hoje ouvir necessariamente “isso não é profissão para uma mulher”. A barreira tornou-se muito mais subtil. Pode estar nas expectativas que começam ainda na infância, na falta de referências femininas em determinada área, em ser a única mulher numa sala, em ter de provar competência um pouco mais depressa ou no velho dilema sobre até onde é permitido ser ambiciosa sem receber qualificativos que raramente são aplicados da mesma forma aos homens.
É por isso que Sybylla parece tão atual. Não porque a sociedade não tenha evoluído, mas porque a pergunta no centro da sua história continua extremamente atual: quanto de nós próprias estamos dispostas a sacrificar para corresponder à vida que os outros imaginaram para nós?
E há algo especialmente positivo em assistir a esta história agora. Porque a diferença entre 1900 e 2026 também se mede pelas mulheres que foram recusando, geração após geração, a ideia de que ambição era uma característica masculina. Cada mulher que entrou numa universidade onde quase não existiam mulheres, abriu uma empresa, escolheu não casar, voltou ao trabalho depois de ter filhos, entrou numa profissão dominada por homens ou simplesmente disse “eu quero isto para mim” ajudou a tornar a escolha da geração seguinte um pouco menos extraordinária.
Uma Carreira Brilhante é divertida, romântica, visualmente incrível e suficientemente contemporânea para nunca parecer uma aula de História. Mas por baixo de tudo isso existe uma ideia poderosíssima: uma mulher poder desejar uma carreira não deveria ser uma história de rebeldia.
Em 1900, para Sybylla, era. Em 2026, já não deveria ser. E o facto de ainda conseguirmos reconhecer tão facilmente algumas partes da sua luta talvez seja precisamente a razão pela qual esta história, 126 anos depois, continua a merecer ser contada.
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