Dua Lipa abre uma biblioteca no Porto dedicada aos livros que alguém tentou silenciar

Dua Lipa não é apenas um das artistas mais famosas do momento, é também uma leitora assumida e o seu universo literário ganhou uma casa física no Porto. A Manifesto Library, criada pela Livraria Lello em parceria com o Service95 Book Club da cantora, reúne 100 títulos que falam de poder, censura, identidade, memória e liberdade. E talvez seja uma das razões mais interessantes para voltar à Lello.

Se ainda associamos Dua Lipa sobretudo a pistas de dança, talvez esteja na altura de acrescentar livros à equação. A cantora criou o Service95 Book Club como parte da plataforma cultural Service95 e, ao longo dos últimos anos, tem usado o projeto para recomendar livros e conversar com escritores como Margaret Atwood e Olga Tokarczuk. Agora, essa paixão pela literatura saiu do ecrã e ganhou um espaço permanente no Porto: a Manifesto Library, instalada na Livraria Lello e inaugurada a 27 de junho.

E não estamos a falar simplesmente de uma estante com os “livros favoritos de Dua Lipa”. O conceito é bastante mais interessante. A Manifesto Library nasceu da parceria entre a Lello e o Service95 Book Club e é dedicada a obras que desafiaram o poder, enfrentaram censura, foram contestadas, deram voz a grupos marginalizados ou obrigaram diferentes gerações a discutir temas desconfortáveis. A seleção reúne 100 títulos, representados por cerca de cinco mil exemplares, organizados não por países, géneros literários ou épocas, mas em quatro grandes temas: Poder, Controlo, Voz e Memória.

É uma biblioteca pensada para abrir conversas. Em “Poder” estão obras que questionam quem decide as regras e quem tem autoridade para contar uma história. “Controlo” olha para vigilância, propaganda, tecnologia e mecanismos, mais ou menos visíveis, usados para condicionar sociedades. “Voz” dá espaço a autores e perspetivas historicamente marginalizados ou sub-representados. E “Memória” reúne livros que resistem ao apagamento de histórias ligadas a guerras, ditaduras, exílio ou trauma coletivo.

A ideia ganha ainda mais relevância quando percebemos que censurar livros está longe de ser uma coisa pertencente exclusivamente ao passado. Segundo os dados destacados pela própria Manifesto Library, em 2023 foram alvo de censura 4.240 livros em distritos escolares e bibliotecas públicas dos Estados Unidos, e, em 2024, escritores foram presos ou detidos em mais de 40 países devido ao que escreveram, publicaram ou disseram. Ou seja, a biblioteca pode ser muito bonita (estamos, afinal, dentro da Lello), mas a discussão que propõe é bastante séria: quem decide aquilo que podemos ler e que ideias permanecem acessíveis?

Dua Lipa descreveu o projeto como uma “parceria de sonho” entre a Livraria Lello e o Service95 Book Club e explicou que, quando criou o clube, queria que este funcionasse como uma casa para escritores e leitores, independentemente do lugar onde estivessem. Para a cantora, a Manifesto Library é um espaço dedicado aos livros e autores que recusaram desaparecer perante estruturas de poder e controlo e, sobretudo, aos leitores que não aceitam que alguém escolha por eles aquilo que podem ou não ler.

Também os nomes que estiveram na inauguração dão uma ideia da dimensão do projeto. Margaret Atwood, Salman Rushdie, Conceição Evaristo, Javier Cercas e Reginald Dwayne Betts estiveram entre os autores presentes na abertura, que aconteceu com um evento de Book Tasting. A biblioteca ocupa o novo auditório cultural da Livraria Lello, projetado por Álvaro Siza Vieira, e pretende funcionar não apenas como lugar para encontrar livros, mas como ponto de encontro para leitura, debate e pensamento crítico.

E talvez essa seja a parte mais cool de tudo isto. Numa altura em que grande parte das nossas recomendações culturais chega através de um algoritmo, existe qualquer coisa de deliciosamente analógico em entrar numa biblioteca, escolher um livro porque o título nos incomodou, intrigou ou despertou curiosidade e descobrir uma ideia que não está propriamente alinhada com aquilo que normalmente consumimos.

A Manifesto Library encaixa também numa nova fase da própria Livraria Lello. A expansão acrescentou perto de mil metros quadrados ao percurso e inclui, além desta biblioteca, novos espaços culturais e a exposição A4, de Ai Weiwei. A ideia é aproximar literatura, arte, arquitetura e liberdade de expressão num lugar que já era uma das grandes atrações culturais do Porto.

E sim, podemos ir lá mesmo sem sermos Dua Lipa, o que facilita bastante as coisas. A Manifesto Library está aberta diariamente, das 9h00 às 19h30, e a visita está incluída no ticket-voucher de entrada da Livraria Lello.

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