Matcha Fever: porque (e como) é que virou símbolo de lifestyle?

O verde-matcha começou a colorir os nossos ecrãs por volta de 2018 e, desde então, não se foi embora.

Quem diria que uma tradição japonesa, com séculos de ritual associados, estaria hoje à mão de semear, embrulhado num copo de plástico, em qualquer esquina?

À partida, ninguém, não é? Então, como é que isto aconteceu exatamente? 

Originalmente, o matcha foi levado da China para o Japão por um monge que o descobriu e ficou deliciado com o seu sabor e carácter tão único; por isso, quis trazê-lo para a sua terra natal, onde poderia promover os seus benefícios para a saúde e meditação.

Então o matcha não é japonês? Bem, não exatamente; mas foi no Japão que se desenvolveu a aura especial que o envolve. Até porque os japoneses não tinham por hábito consumir matcha. Sabes aquele tio-avô que, quando têm a família reunida, oferece um cheirinho de bagaço a todos, porque é uma ocasião especial? Não que queira comparar uma aguardente de 50% a um chá outrora usado por monges para meditar, mas… culture schock, não é o que dizem? Pois bem, em Portugal, o equivalente seria algo assim, só para entenderes a referência.

Dado o seu propósito, as folhas deste chá eram mantidas longe do sol durante um par de semanas para intensificar o seu sabor. Depois, eram cuidadosamente colhidas à mão, cozidas a vapor, secas e lentamente moídas até obter um pó bem fininho, utilizando moinhos de pedra tradicionais. Uma hora de labuta não dava mais que uma pequena porção deste pó, pelo que o matcha era, acima de tudo, uma bebida que subtilmente ensinava sobre ter paciência e abrandar o ritmo, enquanto era saboreado entre anfitriões e convidados, samurai guerreiros ou noutros possíveis cenários para o chanoyu (palavra japonesa para a cerimónia que envolve a preparação e o consumo de matcha e combina budismo zen, estética refinada e hospitalidade).

E atualmente bebem-se quatro goles durante uma reunião, um entre dois e-mails, três enquanto se evita um colega no elevador e o resto já frio na corrida para o metro. Ou num brunch com uma tosta de salmão fumado e queijo philadelphia.

E calma: isto está longe de ser uma crítica de velha do restelo, de “ai, já nada é como dantes, para onde é que foi a tradição?”. Pelo contrário! (Até porque há fãs deste lado também).

O matcha afastou-se das suas origens geográficas e também do contexto no qual surgiu. Mas não aconteceu o mesmo com as bordas da pizza que em Itália se queriam finas e noutras partes do mundo se fazem mais altas? Ou com o sushi, quando se adicionaram os California Rolls ao menu? Ou com o próprio café, que passou de o clássico espresso para copos de 40ml com leite, xaropes, gelo e chantilly? Sim, o matcha reinventou-se, ganhou outros sabores, mas foi além de uma mera trend: conquistou o seu lugar e ainda hoje, anos depois das suas primeiras aparições mainstream, é uma bebida de eleição para pessoas dos mais variados círculos.

E porquê?

O matcha teve uma sorte combinada que não tiveram outros produtos muito virais dos quais depressa nos esquecemos. Surgiu num momento em que coletivamente começou a valorizar-se as bebidas tradicionais e o café de especialidade, a falar-se de saúde e bem-estar numa ótica menos “no pain, no gain” e mais “presta atenção aos sinais do teu corpo” e, claro, a dar primazia ao que se destaca visual e esteticamente. Por isso, apesar de ser uma novidade, fez imediato sentido para muita gente. E sobreviveu ao passar do tempo, por oferecer uma mescla de benefícios cada vez mais valorizados.

Para começar, contém um aminoácido que permite abrandar a absorção de cafeína (o que evita os tremores, mente frenética, batimentos cardíacos acelerados e quebras abruptas de energia mais típicos do café). A par disso, oferece antioxidantes e vitaminas, o que faz dele mais que uma mera bebida. E, porque “mente sã em corpo são”, convém lembrar que, para quem prepara a sua bebida em casa, promove um momento de slow-living apreciado por muitos. De resto, claro que um copo com líquido verde é muito mais berrante e faz qualquer um olhar (com repulsa, curiosidade ou conexão), seja na rua ou no feed, enquanto permite a quem o traz na mão sinalizar que faz escolhas mais saudáveis, conscientes e, obviamente, cientes da cultura urbana em que se insere.

Esta combinação de fatores torna fácil vulgarizar o uso do matcha em gelados, rebuçados, séruns, cremes e outros que tais. A oferta sabe que há procura e, em não raras ocasiões, dá primazia à quantidade em detrimento da qualidade. E isto porque o matcha deixou de ser uma bebida de nicho para passar a ter um lugar na mão, despensa ou, pelo menos, na mente dos consumidores. Apesar de o matcha ter ganho tanta fama num contexto especial, a sua evolução revela mais sobre a cultura moderna que conhecemos do que propriamente sobre a bebida em si. Porque os consumidores atuais não adotam tradições intactas: a pizza já pode ser com molho barbecue, o sushi pode vir em versão burrito, a limonada passa a ser cor-de-rosa, o simples chai abriu portas ao dirty chai, o yoga evoluiu para o puppy yoga, a meditação sai da floresta e entra numa aplicação que nos diz para respirar segundo a técnica quadrada… é algo tipicamente moderno pegar numa tradição e puxar a brasa à nossa sardinha. Por isso, sendo o matcha fácil de encontrar, de personalizar, de transportar e de entranhar… ficou.

E diria que há um aspeto fundamental que esta bebida trouxe e que foi ressignificado nos dias de hoje. O matcha surgiu como ode ao especial; veio assinalar uma ocasião fora do comum. Mas em que medida é que deixar o matcha para depois é diferente de guardar o vestido bonito na gaveta, a mala cara na sua caixa, o gloss arrojado bem quietinho lá na bolsa de maquilhagem, os guardanapos coloridos na despensa ou os talheres especiais embrulhados na prateleira mais alta? O especial é o quotidiano, não é uma ocasião em específico que pode nunca chegar. E, ainda que isso não seja sinónimo de não ter consciência da nossa pegada ecológica e dos nossos hábitos de consumo, também não deveria ser sinónimo de deixar para depois. O matcha é transformado pelas culturas e pessoas que o adotam; então, que possamos deixar que também ele converta momentos agitados numa ocasião para abrandar, convívios com amigos numa oportunidade para estar conscientemente presente e aquele primeiro gole num café ou take-away numa viagem sensorial até aos campos de chá banhados de sol.