O meu filho quer vestir-se de princesa. E agora?

Se uma menina aparece de calças largas, cabelo curto e prefere futebol a bonecas, durante décadas chamámos-lhe “maria-rapaz” e continuámos com a nossa vida. Mas basta um rapaz querer vestir um vestido de princesa para muitos adultos começarem imediatamente a fazer perguntas. Talvez a primeira devesse ser outra: porque é que isto nos incomoda tanto?

A cena pode acontecer numa festa de Carnaval, numa caixa de disfarces da escola ou simplesmente numa tarde em casa. Entre Homem-Aranha, piratas e dinossauros, um rapaz escolhe o vestido de Elsa. Coloca a coroa. Quer os sapatos brilhantes. Está feliz.

E, de repente, os adultos ficam menos descontraídos do que a criança.

“Devemos deixá-lo?”
“Será uma fase?”
“E se os outros meninos gozarem?”
“Isso quer dizer alguma coisa?”

Na maior parte das vezes, para a criança, significa apenas uma coisa muito mais simples: gosta daquele vestido e quer brincar com ele.

Uma fantasia é uma fantasia, não um diagnóstico

Vestir-se de princesa, brincar com bonecas, gostar de rosa ou preferir personagens tradicionalmente associadas às meninas não permite concluir qual será a orientação sexual ou a identidade de género de uma criança.

A American Academy of Pediatrics explica que a expressão de género inclui precisamente coisas como roupa, penteados, brincadeiras e comportamentos e que explorar formas diferentes de expressão é comum durante a infância. O brincar imaginativo permite às crianças experimentar personagens, papéis e formas diferentes de estar no mundo.

É a mesma criança que hoje quer ser princesa, amanhã quer ser dragão e no fim de semana anuncia que vai ser veterinário de dinossauros. Nem tudo precisa de uma interpretação adulta.

Então, qual deve ser a reação dos pais?

Na parentalidade positiva, o ponto de partida é relativamente simples: aceitar a criança que temos à nossa frente, ouvi-la e orientá-la sem vergonha, humilhação ou medo.

A UNICEF define a parentalidade positiva precisamente através de princípios como aceitar a criança como ela é, ouvir os seus sentimentos, estabelecer limites de forma calma e permitir que desenvolva os seus próprios interesses. A organização dá inclusivamente como exemplo um rapaz que escolhe roupa considerada socialmente feminina: a recomendação não é obrigá-lo a vestir algo “mais normal”, mas permitir a expressão sem o fazer sentir que há alguma coisa de errado consigo.

Portanto, perante um filho que quer vestir-se de princesa, uma resposta saudável pode ser tão pouco dramática como: Claro. Qual vestido queres?

Não é preciso fazer uma reunião familiar. Nem interrogá-lo sobre o motivo. Nem transformar o momento numa declaração sobre quem ele será no futuro. Pode simplesmente brincar.

O problema talvez esteja menos no vestido e mais em nós

Vale a pena fazer um pequeno exercício. Uma menina de cinco anos entra numa festa vestida de Homem-Aranha. Usa umas calças, empunha uma espada, joga futebol e diz que não gosta de princesas.

Quantos adultos ficam verdadeiramente preocupados? Provavelmente poucos. Durante décadas até criámos uma expressão relativamente inofensiva para estas meninas: “maria-rapaz”. Podia existir algum comentário, claro, mas uma menina apropriar-se de códigos considerados masculinos tornou-se progressivamente aceitável. Uma menina pode usar azul, jogar futebol, querer ser astronauta, ter cabelo curto, preferir carros a bonecas e ninguém conclui automaticamente que os pais deveriam impedir a brincadeira. Com os rapazes, a liberdade continua muitas vezes a ser menor.

A pergunta interessante talvez não seja porque quer ele ser princesa, mas porque é que a sociedade aceita tão facilmente que uma menina queira ser o herói, mas continua desconfortável quando um menino quer ser a princesa?

“Mas tenho medo que gozem com ele”

Este é provavelmente o receio mais compreensível dos pais. Não queremos que os nossos filhos sejam magoados. E sabemos que o recreio pode ser consideravelmente menos evoluído do que os livros sobre parentalidade. A solução, porém, dificilmente será ensinar a criança a abandonar aquilo de que gosta antes de alguém ter oportunidade de a rejeitar.

Porque, sem intenção, a mensagem passa a ser: “Há qualquer coisa em ti que devemos esconder para os outros gostarem de ti.” Podemos fazer exatamente o contrário. Preparar sem assustar.

Se a criança vai para um contexto onde poderá receber comentários, podemos dizer: “Algumas pessoas ainda acham que há roupas de menino e roupas de menina. Nós sabemos que tu podes gostar das coisas de que gostas.” E, caso exista gozo, o problema a resolver é o comportamento de quem goza, não o vestido.

A investigação mostra precisamente que crianças que desafiam estereótipos podem receber avaliações mais negativas dos pares e dos adultos, sobretudo quando são rapazes. A função da família pode ser, portanto, oferecer aquele lugar onde a criança não precisa de antecipar essa rejeição.

Talvez devêssemos deixar as crianças experimentar mais coisas

Há uma consequência particularmente bonita quando retiramos género a algumas brincadeiras.

Um rapaz pode aprender a cuidar através de uma boneca.
Uma menina pode descobrir coragem enquanto brinca aos super-heróis.
Um rapaz pode gostar de dança.
Uma menina pode adorar ferramentas.
Ambos podem cozinhar, jogar futebol, cuidar de bebés, subir árvores, usar brilhantes e construir Legos.

Quanto mais estreita for a caixa onde colocamos cada género, menos coisas permitimos que uma criança descubra sobre si.

E se ele sair de casa vestido de princesa?

Talvez esta seja a verdadeira prova para os adultos. Dentro de casa é fácil dizer que somos descontraídos. No supermercado, na escola ou numa festa de aniversário, quando sabemos que alguém pode olhar, já é diferente.

Nessa altura, talvez seja útil perguntar: estou a proteger o meu filho ou estou a proteger-me do julgamento dos outros?

Há situações em que os pais têm obviamente de impor regras sobre roupa, como frio, calor, segurança, código de uma cerimónia ou adequação a determinada atividade. Mas essas regras podem ser iguais para rapazes e raparigas.

“Não podes levar isso porque estão cinco graus” é um limite. “Não podes levar isso porque és rapaz” é outra coisa.

No fundo, é apenas uma criança a brincar

Talvez tenhamos passado demasiado tempo a ensinar às meninas que podem ser tudo o que quiserem sem fazer exatamente o mesmo exercício com os meninos.

Dissemos às nossas filhas que podiam jogar futebol, usar calças, ser fortes, liderar e recusar o papel de princesa. Falta-nos talvez dizer aos nossos filhos que também podem ser delicados, gostar de rosa, brincar às casinhas, chorar, cuidar de uma boneca — e, se lhes apetecer, ser a princesa durante uma tarde inteira. Parentalidade positiva não significa nunca dizer “não”. Significa perceber a que coisas vale realmente a pena dizer não. E um vestido com tule, uma coroa de plástico e uma criança feliz em frente ao espelho provavelmente não estão nessa lista.

#GlitterUpYourLife