Metamorfose – Episódio 17: A quantidade de vidas que poderíamos ter vivido

Há uma coisa em que penso de vez em quando e que, sinceramente, me deixa com alguma curiosidade.

Quantas vidas diferentes poderíamos ter vivido se tivéssemos tomado decisões diferentes?

E não estou necessariamente a falar de arrependimentos. Nem de pensar constantemente no “e se?”, porque acredito que, no momento em que tomamos uma decisão, fazemos aquilo que achamos ser melhor para nós com a informação, a maturidade e a vontade que temos naquela altura.

Mas, ainda assim, é impossível não pensar.

E se tivesse escolhido outro curso?

E se tivesse aceite aquele trabalho?

E se não tivesse aceite aquele outro?

E se tivesse ido viver para outra cidade? Ou para outro país?

E se tivesse conhecido pessoas diferentes?

E se tivesse dito que sim numa altura em que disse que não?

A verdade é que a nossa vida é feita de decisões. Algumas enormes, outras aparentemente insignificantes. E, muitas vezes, nem fazemos ideia do impacto que uma pequena escolha pode ter no resto da nossa história.

Uma conversa pode levar-nos a conhecer uma pessoa. Essa pessoa pode levar-nos a um novo trabalho. Esse trabalho pode fazer-nos mudar de cidade. E, de repente, estamos a viver uma vida que não existiria se, naquele dia, tivéssemos tomado uma decisão ligeiramente diferente.

E acho isto fascinante.

Porque, ao longo da nossa vida, vamos deixando para trás várias versões possíveis de nós.

Existe, algures na nossa imaginação, uma versão de nós que escolheu aquela carreira que acabámos por não seguir. Uma versão que aceitou aquela oportunidade. Outra que fez as malas e foi viver para outro país. Uma que continuou numa relação que, na nossa vida real, terminou. Outra que nunca conheceu as pessoas que hoje considera fundamentais.

E nenhuma dessas versões chegou realmente a existir.

Pelo menos, não da forma como as imaginamos.

Às vezes pergunto-me como seria essa outra Carolina. Que vida teria? Que pessoas fariam parte dela? O que é que faria todos os dias? Teria gostado mais daquela vida do que gosto da minha? E, obviamente, nunca vou saber.

Mas talvez também não precise de saber.

Porque há uma coisa de que tenho cada vez mais a certeza: não existe apenas uma vida certa para nós.

Acho que, por vezes, colocamos demasiada pressão em determinadas decisões porque sentimos que temos de encontrar a escolha certa. Como se existisse um único caminho que nos pudesse levar à vida que devemos ter e qualquer desvio significasse que estragámos tudo.

Mas será que é mesmo assim?

Quantas pessoas mudaram de carreira e acabaram por encontrar algo que nunca tinham imaginado? Quantas mudaram de cidade e descobriram uma versão delas próprias que não conheciam? Quantas relações terminaram e deram espaço para que outras começassem?

Quantas decisões que, na altura, pareciam completamente erradas acabaram por nos levar exatamente onde precisávamos de estar?

A verdade é que nunca vamos saber como teria sido a outra vida. E talvez seja precisamente por isso que não faça sentido passar demasiado tempo a idealizá-la.

Porque também temos esta tendência de imaginar que a vida que não escolhemos teria sido perfeita. Mas esquecemo-nos de uma coisa: essa outra vida também teria tido problemas. Também teria dias maus. Também teria dúvidas, erros, desilusões e decisões difíceis.

Porque não existe uma versão da nossa vida onde tudo correu exatamente como queríamos. A vida perfeita que imaginamos é perfeita precisamente porque nunca tivemos de a viver. E talvez seja isso que torna este pensamento tão perigoso, mas ao mesmo tempo tão interessante.

Porque não acho que devamos viver presos às vidas que não tivemos. Mas também acho bonito percebermos que cada decisão que tomamos está, de alguma forma, a construir uma nova versão de nós.

Hoje sou a pessoa que sou por causa das decisões que tomei, mas também por causa de todas aquelas que não tomei. Por todos os caminhos que abandonei. Por todas as oportunidades que recusei. Por todas as vezes em que mudei de ideias.

E, sinceramente, às vezes penso que talvez algumas das decisões que mais questionei tenham sido precisamente aquelas que mais contribuíram para a vida que tenho hoje. Porque uma decisão não define apenas aquilo que escolhemos. Define também tudo aquilo que deixamos de escolher. E isso pode ser assustador.

Principalmente quando estamos nos 20’s e sentimos que estamos constantemente a decidir coisas que vão influenciar o nosso futuro. A carreira. A cidade. As relações. A forma como queremos viver. Parece que estamos permanentemente a escolher entre várias vidas possíveis sem fazermos ideia de qual delas seria a melhor. E talvez nunca exista uma forma de ter a certeza.

Talvez a vida não seja sobre encontrar o caminho perfeito. Talvez seja sobre escolher um caminho e perceber o que fazemos com ele. Talvez todas as versões possíveis de nós olhassem umas para as outras com a mesma curiosidade.

E, no meio de tantas vidas que poderíamos ter vivido, acho que o verdadeiro desafio é não nos esquecermos de viver aquela que efetivamente escolhemos.

Artigo por Carolina Silva
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