Robbie Williams, Lauryn Hill, Grace Jones, Interpol, Deftones, Peaches. O cartaz do MEO Kalorama 2026 parece ter descoberto uma verdade importante: a geração que cresceu com MTV, CDs gravados e festivais até de manhã continua a querer ouvir música ao vivo. Só já não está disposta a sofrer tanto por isso. Começa amanhã e termina a 30 de agosto o MEO Kalorama, festival de música mais eclético do ano.
Houve uma altura em que ir a um festival significava sair de casa com 20 euros no bolso, um telemóvel com 13% de bateria e a convicção absoluta de que o resto se resolveria.
Não sabíamos exatamente a que horas tocavam as bandas. Não tínhamos um plano para regressar. Um hambúrguer misterioso servia perfeitamente de jantar. Sentarmo-nos no chão era uma opção confortável. E passar cinco horas de pé para garantir um bom lugar à frente do palco parecia-nos uma decisão perfeitamente razoável.
Entretanto crescemos. E, aparentemente, os festivais cresceram connosco. O MEO Kalorama regressa ao Parque da Bela Vista, em Lisboa, de 28 a 30 de agosto, e basta olhar para alguns dos maiores nomes do cartaz deste ano para perceber que há ali uma quantidade considerável de nostalgia à espera de ser ativada.
Robbie Williams. Precisamos mesmo de explicar?
Na sexta-feira, Robbie Williams é o cabeça de cartaz do palco principal. Para quem cresceu nos anos 90 e 2000, Robbie não é simplesmente um cantor. É Angels. É Rock DJ. É Feel. É a fase Take That. É saber refrões inteiros sem qualquer memória consciente de os ter aprendido.
Na mesma noite atuam Grace Jones e Interpol, dois nomes completamente diferentes entre si, mas com uma característica em comum: já tinham carreiras suficientemente importantes quando boa parte do atual público dos festivais ainda estava a decidir que posters colocar no quarto.
Grace Jones continua, aos 78 anos, a representar uma espécie de manual vivo sobre como nunca se tornar aborrecida. Interpol transporta-nos imediatamente para aquele início dos anos 2000 em que todas as pessoas ligeiramente cool tinham franja, roupa preta e provavelmente um perfil no MySpace.
Basicamente, a sexta-feira tem potencial para provocar mais memórias do que uma caixa de fotografias antigas.
Lauryn Hill e Wyclef Jean: olá, adolescência
O sábado também não está propriamente interessado em proteger-nos emocionalmente. Ms. Lauryn Hill atua com Wyclef Jean, YG Marley e Zion, recuperando inevitavelmente parte do universo dos Fugees e de uma das artistas mais marcantes dos anos 90.
Para quem ouviu The Miseducation of Lauryn Hill até o CD começar a riscar, há concertos que deixam de ser apenas concertos. Transformam-se numa espécie de reencontro com versões anteriores de nós próprios.
E é precisamente aí que este Kalorama se torna interessante. Claro que o festival continua cheio de artistas atuais e novas descobertas – Ravyn Lenae, Judeline e vários nomes da eletrónica fazem parte do programa. Mas o cartaz consegue colocar essas novidades ao lado de artistas que acompanham o público há 20, 30 ou mais anos.
Domingo também é para quem teve uma fase Deftones
Se sexta pertence à pop e sábado ativa a nostalgia hip-hop e R&B, domingo chega para todas as pessoas que em algum momento da adolescência decidiram que a roupa preta exprimia melhor a complexidade da sua alma.
Deftones encerram o palco MEO, numa noite que inclui ainda Turnstile, Peaches, Clipse e Freddie Gibbs com The Alchemist.
E há algo deliciosamente reconfortante na ideia de alguém que ouvia Deftones aos 17 poder vê-los agora aos 37, 42 ou 50. Com melhores sapatos.
Porque continuamos a ir a festivais. Só mudámos as regras.
A ideia de que festivais pertencem exclusivamente aos vinte e poucos anos está cada vez mais ultrapassada. Gostar de música ao vivo não desaparece quando começamos a ter lombares, filhos, reuniões às nove da manhã ou uma relação muito mais séria com oito horas de sono. O que muda são as condições.
Aos 20, “encontramo-nos lá dentro” era um plano. Agora enviamos localização. Antes saíamos de casa e logo se via. Agora fazemos screenshot dos horários. Antes qualquer ténis servia. Agora a escolha de calçado é provavelmente a decisão logística mais importante do dia. E ninguém tem de pedir desculpa por isso.
Também queremos jantar. Um conceito revolucionário
Há outra diferença importante entre o nosso primeiro festival e o atual: já não queremos necessariamente sobreviver a três dias de música à base de batatas fritas. O próprio Kalorama tem vindo a trabalhar a experiência para lá dos palcos e, este ano, reforçou a componente gastronómica, incluindo projetos com os chefs Henrique Sá Pessoa e Marlene Vieira, além de outras propostas de restauração espalhadas pelo recinto.
É possível apreciar Deftones e simultaneamente desejar uma refeição decente. As duas personalidades podem coexistir. Chama-se maturidade.
E, sim, provavelmente vamos sentar-nos
Este talvez seja o verdadeiro momento de emancipação festivaleira: perceber que não precisamos de estar constantemente na primeira fila para provar que estamos a divertir-nos. Podemos ver um concerto mais atrás. Podemos sentar-nos durante meia hora. Podemos não chegar quando abrem as portas. Podemos escolher três artistas em vez de tentar assistir a 14. Podemos até ir embora quando estamos cansados. Nada disto diminui a experiência.
Aliás, talvez seja precisamente o contrário. Depois de dezenas de concertos, já sabemos aquilo de que realmente gostamos e deixámos de sentir que é obrigatório fazer tudo.
O melhor do cartaz é esse encontro de gerações
O MEO Kalorama 2026 não é um festival nostálgico. O cartaz mistura nomes históricos, artistas atuais, hip-hop, rock, pop, indie e eletrónica, distribuídos por três dias e vários palcos.
Mas ter Robbie Williams, Grace Jones, Lauryn Hill, Wyclef Jean, Interpol, Deftones, Peaches e Sam The Kid no mesmo fim de semana produz inevitavelmente uma sensação particular para quem cresceu entre os anos 80, 90 e 2000.
É a confirmação de que a nossa cultura pop também cresceu connosco. Os artistas que ouvíamos na escola continuam em palco. Nós continuamos cá para os ver. Só entretanto percebemos algumas coisas.
Que protetor solar é importante. Que água deve ser intercalada com cerveja. Que uma pequena mala com fecho é melhor do que andar com tudo nos bolsos. E que ninguém recebe uma medalha por chegar a casa às seis da manhã.
Essa é a grande vantagem de ir a festivais quando já não temos 20 anos: continuamos a sentir exatamente a mesma coisa quando começa aquela música que adoramos, mas finalmente aprendemos a levar um casaco.
#GlitterUpYourLife