A pergunta parece simples até tentarmos respondê-la. A resposta mais imediata seria dizer que não acreditam em nada. Mas será mesmo assim? Será possível viver sem acreditar? Sem confiar em alguma coisa que não conseguimos ver, medir ou provar por completo?
Talvez uma pessoa não acredite em Deus, mas acredite profundamente no amor. Na ciência. Na justiça. Na humanidade. No acaso. Na natureza. Na força das escolhas. Na ideia de que fazer o bem importa, mesmo quando ninguém está a observar. Talvez acredite que tudo termina aqui. E talvez essa convicção torne cada dia mais valioso, cada abraço mais urgente, cada despedida mais definitiva.
Ou talvez não tenha certezas. Talvez simplesmente não saiba. Vivemos num mundo que parece exigir respostas rápidas. Acreditas ou não acreditas? És religioso ou ateu? Tens fé ou não tens? Como se tudo pudesse ser arrumado em duas caixas perfeitamente separadas.
Mas entre a fé e a ausência dela existe um território imenso, cheio de dúvidas, contradições, memórias e perguntas por responder.
Há quem não pratique nenhuma religião, mas fale com alguém que já morreu. Há quem não entre numa igreja há décadas, mas acenda uma vela quando tem medo. Há quem rejeite todos os dogmas, mas peça silenciosamente que tudo corra bem antes de receber uma notícia importante. Será isso fé? Esperança? Hábito? Necessidade? As fronteiras não são tão claras como gostamos de imaginar.
Também há pessoas que encontram nas religiões uma estrutura, uma comunidade, um sentido de pertença e uma forma de atravessar a dor. Outras encontram exatamente isso numa família, numa amizade, num projeto, numa causa ou numa profissão.
Uns rezam. Outros meditam. Outros correm, escrevem, pintam, contemplam o mar ou olham para as estrelas. Uns procuram respostas em livros sagrados. Outros procuram-nas em laboratórios, em poemas, em conversas que se prolongam pela noite ou no silêncio de uma montanha. No fundo, talvez todos procurem algo parecido: uma forma de compreender o que fazem aqui.
Porque mesmo quem não acredita numa vida depois da morte tem de encontrar uma maneira de lidar com a morte. Mesmo quem não acredita num plano divino pode perguntar-se se a sua vida tem um propósito. Mesmo quem não reconhece qualquer força superior pode sentir-se pequeno diante da imensidão do universo.
E talvez acreditar não seja apenas aceitar a existência de uma divindade. Talvez seja levantar-se de manhã convencido de que vale a pena continuar. É confiar em alguém apesar da possibilidade de desilusão. É ter um filho e imaginar que o mundo ainda pode ser um lugar bom. É plantar uma árvore cuja sombra talvez nunca cheguemos a aproveitar.
Será a esperança uma forma de fé? Será acreditar no progresso muito diferente de acreditar na providência? Será confiar na humanidade menos misterioso do que confiar em Deus? E o que acontece quando aquilo em que depositámos toda a nossa confiança nos falha?
A religião oferece, muitas vezes, uma narrativa para o sofrimento. Uma explicação, uma promessa, uma possibilidade de reencontro. Para quem não tem religião, talvez o sofrimento fique mais exposto, sem a proteção de uma resposta maior. Ou talvez a liberdade de não encontrar uma explicação também possa ser uma forma de paz. Aceitar que algumas coisas simplesmente acontecem. Que a vida pode ser bela e injusta ao mesmo tempo. Que nem todas as perdas têm uma razão. Que não existe necessariamente uma mensagem escondida em cada tragédia.
Há quem encontre consolo na ideia de que tudo acontece por um motivo. Há quem encontre consolo precisamente no contrário: na certeza de que não foi castigo, destino ou vontade de alguém. Nenhuma destas formas de olhar para o mundo parece eliminar totalmente o medo, a dor ou a solidão.
Talvez por isso esta não seja uma pergunta sobre religião. Talvez seja uma pergunta sobre a condição humana. Em que nos apoiamos quando tudo treme? O que nos faz continuar quando não existe garantia de que as coisas vão melhorar? A quem agradecemos quando a vida nos surpreende? Com quem falamos quando não conseguimos falar com mais ninguém?
Não sei em que acreditam todas as pessoas que não têm religião. Talvez nem elas saibam explicar. Talvez a crença não tenha sempre um nome. Talvez viva disfarçada em pequenos gestos, em princípios, em afetos e em escolhas repetidas todos os dias. Talvez alguns não acreditem em nada para além do que conseguem provar. Talvez outros acreditem em muito mais do que imaginam. E talvez a questão não seja saber se temos ou não fé, mas em perceber o que fazemos com ela, ou com a ausência dela, enquanto vivemos.
#GlitterUpYourLife